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Cultura » Na trilha dos pioneiros

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Luiz Carlos Merten

19 Junho 2010 | 10h57

Lá vou eu falar de Ford, de novo. É um assunto inesgotável, e tenho aproveitado o Festival John Ford do TCM para repassar alguns daqueles velhos filmes que tanto amo, e que ajudaram a construir meu imaginário. Celdani, foste tu não?, me pede que fale mais sobre ‘Caravana de Bravos’. O próprio Ford tinha um carinho especial por esse filme. Chamado de Homero de Hollywood, ele gostava de narrar odisseias de grupos e aqui acompanha uma caravana de mórmons que segue para o Oeste. Não acontece muita coisa, o ritmo é deliberadamente lento e o ‘conflito’ se estabelece quando o grupo encontra fugitivos que erram pelo deserto – como o trio de assaltantes de ‘O Céu Mandou Alguém’. Não revi o filme nesta reprise recente na TV paga, mas até onde me lembro existe um bêbado na história que remete a outro filme, clássico, de Ford,´’Paixão dos Fortes’, ou My Darling Clementine. Tenho para mim que o frágil encanto de determinados filmes de Ford decorrem do seguinte. Acho que o velho sempre foi muito consciente do que fazia e, de vez em quando, realizava uns filmes ‘pequenos’ para seu prazer pessoal. Esse é um deles. Não tem astros nem estrelas, não tem nem mesmo uma história. O roteiro foi sugerido pelo diretor e desenvolvido por um de seus roteiristas preferidos, Frank Nugent e também, se não me engano, por seu filho, Patrick. O elenco é formado, quase todo, por coadjuvantes de outros filmes (os ‘grandes’) do próprio mestre. A fotografia, tenho certeza, é de Bart Glannon, um gênio do preto e branco, mas agora me confundo – vários filmes desta época têm a participação dos Sons of the Pioneers na trilha. Particularmente, acho muito bonitas aquelas canções corais. Estão em ‘Caravana de Bravos’ ou em ‘Rio Bravo’, que tem mais ‘ação’? Estão nos dois? “Wagon Master’, titulo original, deu origem a uma série de TV, ‘Wagon Train’, estrelada por Ward Bond, um daqueles atores ‘característicos, quase sempre representando a autoridade, nos filmes de Ford. Por amizade a Ward Bond, ele dirigiu um dos episódios da série, mas eu nunca vi ‘The Colten Craven Story’, de 1960, que dispõe de muito boa reputação entre os estudiosos da obra fordiana. Estou pensand agora que o ano de 1950, quando Ford fez ‘Caravana de Bravos’, foi muito importante para o próprio western, enquanto gênero. Delmer Daves fez ‘Flechas de Fogo’, Broken Arrow, que sempre é apontado, historicamente, como o primeiro western pró-índio. Henry King investigou a violência do gênero e questionou a essência do mito em ‘O Pistoleiro’, The Gunfighter, fazendo do seu filme um western psicológico que teve desdobramentos na produção hollywoodiana dos anos seguintes (estou pensando em ‘Shane’/Os Brutos Também Amam, de George Stevens). Ainda em 1950, Anthony Mann adentra majestoso no gênero com ‘Winchester 73’, western episódico, cíclico, no qual já está delineado o clima de tragédia da produção seguinte do autor – ao recuperar, enfim, seu rifle roubado, Lin McAdam/James Stewart mata seu irmão e isso é tragédia grega pura, embora não tão sombria como outras que o grande diretor filmou depois. O western estava mudando e Ford, compassivo, exaltava o espírito dos pioneiros. Acho que ele se deu conta disso e até de que poderia estar virando reacionário. Por isso, no célebre episódio em que Cecil B. de Mille tentou cooptar o Director’s Guild para apoiar a caça às bruxas do macarthismo, Ford deu aquela declaração – ‘My name is John Ford and I make westerns’, colocando-se contra o grupo de De Mille. Ford foi mudando ao longo de toda a década de 1950. Chegou a substituir suas odisseias de grupos e fez da tragédia de um individualista – o Ethan Edwards de ‘Rastros de Ódio’ – seu maior filme (para mim e muita gente mais, o que não impede ninguém de ter outros favoritos na obra do cineasta). Nos 60, foi dos primeiros, com Peckinpah, a revisar a lenda que ajudara a criar. ‘O Homem Que Matou o Facínora’ e ‘Crepúsculo de Uma Raça’ são projetos irmãos, mesmo que o primeiro seja melhor – ou então conta o fato de que o segundo, além de ter sido remontado pelo estúdio, não pôde ser feito como Ford sonhara. Nem ele conseguiu bancar que a Warner aceitasse o fato de que os índios fossem interpretados por cheyennes autênticos, falando sua língua. Não digo? Ford é um assunto inesgotável. Uma coisa puxa a outra e eu poderia ficar aqui horas, repassando sua história, que também é a de Hollywood e a do cinema.

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