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Na trilha dos Kikitos

Luiz Carlos Merten

06 Agosto 2011 | 10h58

GRAMADO – Olá, aqui estou, desde ontem, participando do 39º Festival de Cinema Brasileiro e Latino. Tenho sentimentos ambivalentes em relação a esse festival. Embora gaúcho, e na ativa desde o começo do evento, nunca fiz parte da casa. Estava na Caldas Jr., que apoiava, ou até patrocinava o festival – foi uma invenção de P.F. Gastal -, mas eu achava que era um evento turítico e, no começo dos anos 1970, nos anos de chumbo, eu esperava que o festival fosse uma tyrincheira contra a censura e a ditadura. Só voltei a Gramado quando já estava em São Paulo, no ‘Estadão’. Digamos que, por mais de 15 anos, o festival e eu nos ignoramos. Mas não vem disso a minha ambivalência. As paredes do Palácio dos Festivais, como não me canso de assinalar, estão cobertas de placas em homenagens a mortos ilustres, muitos amigos queridos, que carrego comigo. Fico sempre meio bodeado, me sentindo um sobrevivente. Mas, enfim, cá estou e ontem o festival começou com uma homenagem a Selton Mello, que recebeu, das mãos de Paulo José, o Troféu Cidade de Gramado. Selton estava inspirado e fez um belo discurso de agradecimento, lembrando o garoto ansioso que ele foi, em 1992, louco por cinema. Se pudesse, ele ia à Rodoviária e pegava um ônibus para aquele ano e tranquilizva o Seltonm guri, dizendo que, quase 20 anos depois (19), com 30 filmes no currículo, ele estaria sendo homenageado. Selton, filho da mãe, chorei com teu discurso. Estou agora conseguindo ver os filmes que perdi em Paulínia. Tive sessões especiais, em São Paulo, de ‘Onde Está a Felicidade?’ – sorry, Riccelli e Bruna, adoro vocês, reconheço o esforço, mas o filme me deixou de pedra – e ‘A Febre do Rato’. Pelamor de Deus, esse Cláudio de Assis filma bem demais e a fotografia em preto e branco é esplendorosa. O sórdido e o feio ficam deslumbrantes e não há nada que me fascine mais no cinema, mas não estou muito seguro das qualidades do filme nem se gostei. O personagem de Irandhyr Santos me pareceu utópico, um contestador do passado que fez o caminho inverso do que Selton Mello queria fazer e pegou o último trem de Woodstock para a atualidade. Meu colega e editor Ubiratan Brasil se perguntou se eu ia dar um pau no filme. Mais um? O meu também? Nunca vi um filme com tanto nu frontal masculino, de todos os tamanhos, espessuras, cores, tortinho para um lado, tortinho para outro – faz parte das provocações anacrônicas de ‘A Febre do Rato’. Mas, insisto, a elaboração de certos planos me deixou chapado. Irandhyr se prepara e reúne seu grupo para a derradeira provocação, no 7 de setembro. O plano é dominado pelo olhar de Ângela Leal, que faz sua mãe. Ela pressente o que vai ocorrer. É uma das coisas maos lindas que vi no cinema brasileiro recente (ou não, no antigo também). Aqui, em Gramado, vi ‘O Palhaço’, do Selton, que ganhou o prêmio de direção em Paulínia (‘A Febre’ foi melhor filme). ‘O Palhaço’ é lindo e eu gostei de ver, mas também estou em dúvida de que seja ‘bom’. Selton me havia dito que o filme persegue a terceira via para o cinema brasileiro. Tem de haver um filme intermediário entre o blockbuster e o miúra. Achei que, para um filme que nasceu com essa intenção,’O Palhaço’ é muioto difícil. O filme é delicado e muito bem interpretado por uma galeria de personagens encantadores, senão inesquecíveis, mas é frágil e não a fragilidade de ‘Meu País’, que faz a força do filme de André Ristum. Os amigos que me perdoem, mas, se fosse jurado em Paulínia, teria feito uma guerra pelo ‘Meu País’.