Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Na Serra da Boa Esperança

Cultura

Luiz Carlos Merten

30 Janeiro 2011 | 12h26

 CARMO DO RIO CLARO – Fiquei feliz da vida porque ‘Os Residentes’, de Tiago Mata Machado, foi o grande vencedor da Mostra Aurora, ontem à noite, em Tiradentes. O filme venceu os prêmios do júri jovem e da crítica e agora vai para o Fórum, em Berlim. Pode até ser que goste de ‘O Sol sobre os Ombros’, quando finalmente vir o filme de Sérgio Borges que ganhou o Candango brasiliense, mas até lá acho que ‘Os Residentes’ foi injustiçado e isso por causa da pressão de uma crítica que não teve o mínimo entendimento da proposição do diretor mineiro. Feito o registro, quem leu a origem do post, de onde estou escrevendo, já viu que não estou mais em Tiradentes. Desde ontem, estou, estamos – Dib Carneiro e eu -, no sítio de Gabriel Villela. O Dib já tinha vindo aqui, eu há tempos queria vir, mas os desencontros nunca me permitiam. Agora, de Tiradentes para cá foram quatro horas de estrada, mas valeu a pena. Gabriel sempre me falava da Serra da Boa Esperança, que desde a varanda da casa do sítio é possível descortinar. A casa, feita com material de demolição da mansão senhorial dos Villela, é superacolhedora e eu estou amando. Ontem à noite, entramos pela madrugada em discussões de alta cultura. Dib adaptou ‘A Crônica da Casa Assassinada’, de Lúcio Cardoso, para o Gabriel, que começa os ensaios da peça em março, após o carnaval. Gabriel vê um arcabouço ‘pirandelliano’, intuitivo, na dramaturgia do Dib e a conversa foi por aí. De repente, estávamos discutindo o conceito do ‘distanciamento crítico’. Em Paris, assisti a ‘O Soma Lucce’, de Jean-Marie Straub, que, entrevistado por ‘Transfuge’ – atualmente,m a melhor revista de cultura do mundo, pelo menos que eu conheça -, coloca em xeque o tal ‘distanciamento’. Brecht nunca usou a expressão, o que ele usa – não sei qual é a palavra em alemão -é estranhamento. Brecht buscava esse estranhamento no centro do palco italiano, que, no teatro, é o reduto por excelência do ilusionismo. Adoro essas conversas, a erudição do Gabriel me atça e ilumina. Em Tiradentes, durante o debate sobre a obra de Paulo Cezar Saraceni – homenageado do festival -, alguém pediu ao diretor que falasse sobre Lúcio Cardoso, a quem conheceu e adaptou (a Crônica, inclusive). Saraceni, que, quando jovem, foi jogador de futebol  (e um belo homem), falou do Lúcio que teve o privilégio de conhecer e era também um belo homem, mas atormentado, consumido por uma danação interna. Saraceni é reticente ao usar a definiç~sao ‘genial’, mas diz que, na vida dele, conheceu dois gênios – Lúcio Cardoso e Gláuber Rocha. Gabriel pediu que eu postasse isso. Aqui está, o gênio de Lúcio Cardoso reconhecido por quem o conheceu, não apenas leu. De repente, me deu essa ideia maluca. E se, de repente, a gente falasse com Adhemar Oliveira e com meus amigos do Estação para recolocar nos cinemas ‘A Casa Assassinada’, de Saraceni, simultaneamente à estreia da ‘Crônica’, de Dib e Gabriel, primeiro no Rio e, depois, em São Paulo? Não seria bacana? Acho que sim. Eu, pelo menos, adoraria ver e comentar a transposição da obra-prima literária para outras mídias, teatro e cinema.