Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Na selva da Metro

Cultura

Luiz Carlos Merten

23 Novembro 2009 | 15h42

Foi um erro imperdoável e, mesmo assim, peço desculpas. Estava digitando o nome da mãe de Mia Farrow, Maureen O’Sullivan, que foi a Jane de Johnny Weissmuller, o melhor Tarzan do cinema, e me saiu no automático, tão logo digitei Maureen O’, o nome da fordiana Maureen O’Hara. Como disse, no sábado pela manhã, estava fazendo hora, no Centro, para cortar o cabelo e fiquei entrando naquelas lojas de DVDs. Só ali na Av. São João, entre o Largo Paissandu e a Av. Ipiranga, existem duas (e enormes). Não sei se as pessoas se dão conta disso, e também não sei se chegam a se importar, mas a série com Weissmuller e O’Sullivan marcou um momento decisivo nas transposições do herói criado pelo escritor Edgar Rice Burroughs para a tela. Maureen se batia para que as aventuras de Tarzan fossem voltadas para o público mais adulto, a Metro – empresa produtora – se orientava no sentido de infantilizá-las cada vez mais, sob a desculpa do divertimento familiar. W.S. Van Dyke iniciou a série em 1932, com ‘Tarzan, o Filho das Selvas’ (The Ape Man). Logo em seguida veio ‘A Companheira de Tarzan’ (Tarzan and His Mate), de Cedric Gibbons, pelo qual tenho um carinho especial. Naqueles primeiros filmes, vários dirigidos por Richard Thorpe – ‘A Fuga de Tarzan’, ‘O Filho de Tarzan’, ‘O Tesouro de Tarzan’, ‘Tarzan contra o Mundo’ etc –, o que mais surpreendia era a transformação de Jane, não uma ianque de Baltimore (como nos livros), mas uma aristocrata inglesa, extremamente segura de si e, portanto, avançada para os padrões das mulheres dos anos 1930/40 (exceto Katharine Hepburn). Jane aparece nua – em silhueta – ou vestindo roupas mínimas e Tarzan e ela vivem maritalmente, o que desafiava duplamente as ligas de censura. Mas Boy, o filho da dupla, era adotado, bem como o garoto negro que o rei da selva também incorpora à família – em ‘O Tesouro de Tarzan’, muita gente nem sabe disso – e ele desaparece no filme seguinte. Em matéria de Tarzan, mesmo lamentando que Hollywood nunca tenha feito justiça à imaginação delirante do escritor Rice Burroughs – como teria sido legal ver Camelot ou o Império Romano na selva –, fui sempre fã de carteirinha da dupla Weissmuller/O’Sullivan. E eles ainda tinham aquela cabana na árvore, que o estúdio ia incrementando cada vez mais. Dos demais Tarzans, gosto do Gordon Scott de ‘A Maior Aventura de Tarzan’ de John Guillermin, de 1959, no qual Sean Connery faz o vilão e Scilla Gabel, uma clone de Sophia Loren, tem, talvez, a morte mais impressionante de toda a série. E existe, claro, o ‘Greystoke’, de Hugh Hudson, com aquela cena dilacerante em que o herói, Christopher Lambert, encontra seu pai ‘gorila’ enjaulado no laboratório. ‘Greystoke’, vale destacar, não é um filme de aventuras. É o ‘Garoto Selvagem’ do diretor inglês – homenageado deste ano no Festival de Manaus –, ainda mais atormentado do que o de Truffaut. Não sei, sinceramente, se um post desses interessa a muita gente, mas gosto demais dessas viagens no túnel do tempo.

Encontrou algum erro? Entre em contato