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Cultura » Na rota do papa

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Luiz Carlos Merten

10 Maio 2007 | 19h33

Meninos, cá estou eu de volta, depois de quase dois dias fora do ar. Mas ontem foi punk, como gosto. Saía de uma entrevista para outra, de uma cabine para outra e tudo isso tendo matérias para escrever e o trânsito infernal de uma São Paulo em êxtase – de joelhos! – perante Bento XVI, para enfrentar. Não quero entrar em considerações sobre o papa, só assinalar uma coisa. Bento é menos carismático que João Paulo II, a Igreja Católica, todo mundo sabe, está perdendo fiéis para as igrejas evangélicas. O papa é reacionário, está de costas para a modernidade, como sugere, na capa, uma semanal. Mas então – por que esse frenesi todo? Existem, ainda, uma pompa e uma circunstância que só a Igreja Católica oferece aos fiéis neste mundo ocidental judaico/cristão. O papa, qualquer papa que vista aquele hábito branco e abra os braços naquela saudação de paz, vira um ícone, eis a verdade. E o catolicismo deve estar muito mais arraigado do que as pessoas não praticantes são tentadas a admitir. É difícil manter a lucidez no clima de emoção, beirando a histeria, que está à solta. Ver a cobertura na TV chega a ser hilário. Jornalistas veteranos estão gaguejando como nunca. Não são atores, não devem estar fingindo. Estão realmente emocionados. Que coisa! Enfim, responsabilizado o papa por parte da correria em que me encontro (com milhões de paulistanos), vamos aos fatos. Entrevistei Gustavo Santaolalla por telefone, para falar do concerto que ele realiza amanhã no Rio, no evento da Lia Vissotto, Música em Cena (e que será seguido na segunda por outro, em São Paulo). Achei o cara muito legal. É raro um compositor, como ele, que diz que seu método se baseia na experimentação, que o excesso de música pode transformar uma cena dramática em melodramática e que todo filme tem de ter espaço para o silêncio. Adorei! Na seqüência, entrevistei o Cláudio Assis, por Baixio das Bestas, que estréia amanhã, e que eu amo. Cláudio só acredita no cinema visceral, que vem de dentro. Baixio não é um lugar, embora exista. É muito mais uma geografia interna, um sentimento que devora as pessoas que habitam a sarjeta e que o diretor filma de forma esplendorosa. Vejam amanhã, mas preparem-se. O filme trata de uma violência endêmica que consome o País. As mulheres são as vítimas preferenciais. O mais impressionante é que este filme terrível é de uma beleza visual de cortar o fôlego. Haja coração!