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Luiz Carlos Merten

08 Julho 2010 | 09h38

Lembrei-me ontem – muito – de Peter Bogdanovich. Em 1968, usando parcialmente material de arquivo rodado pelo produtor Roger Corman, ele fez ‘Targets’, Na Mira da Morte, sobre um velho ator de terror, Boris Karloff, que resolve se aposentar, convencido de que o horror da realidade supera o ingênuo dos filmes. Para prová-lo, o diretor conta, em paralelo, a história do atirador solitário que se instala atrás da tela de um drive-in e dispara seu rifle contra o público. O jovem Bogdanovich, ex-crítico e tiete do cinema hollywoodiano ‘clássico’, era tão bom. ‘Na Hora da Morte’ deixa a gente por um fio, tal é o suspense. Fui ontem, meio que me penitenciando, ver pelo menos um filme do II SP Terror – Festival Internacional de Cinema Fantástico, na Reserva Cultural. O festival começou quando estava no México e terminei não dando nada, no blog nem no ‘Caderno 2’. Por uma questão de horário – havia visto o treino do Barcelona, perdão, a vitória da Espanha sobre a medíocre seleção alemã (pareciam tão bons, não?), no Anhangabaú –, terminei vendo o programa formado por ‘Gato Preto’, de Karina Mendonça Albuquerque, e ‘O Filho do Pinóquio’, de Santiago Lapeira. São filmes mais fantásticos que assustadores – preferiria ter visto ‘Centopeia Humana’, que deixou impactados os colegas da Arte, aqui na redação do Estado –, mas tudo bem. Saí do cinema e fui tomar um café. Passava na TV o caso do Bruno, outra história horrorosa como a do assassinato da menina Isabela. Foi aí que pensei em Bogdanovich. O horror da realidade realmente supera o dos filmes. Tantas vidas destruídas, não apenas a da ‘amante’, Elisa. Ponho entre aspetas porque é curioso como termina se atribuindo um valor às coisas, ou às pessoas, perdão. Bruno, Macarrão, o sobrinho, a ‘amante’, a ‘esposa’, todo mundo na lama. Ainda existe muita contradição entre os depoimentos, mas o que rege a mentalidade que leva essas pessoas, tipo Bruno, só porque se destacam em seu meio social, a achar que podem tudo? O neguinho é pobre, iletrado? É muito pedir consciência social, mas quer curtir? Quer fazer orgia? Se é todo mundo adulto e aguenta o tranco, faz, mas pegar em armas e mandar ‘apagar’ quando as coisas saem do controle, não dá. Misturo as coisas, eu sei, mas no tapete vermelho de Tom Cruise, no Rio, volta e meia havia uma corrida dos ‘fãs’ para alguma celebridade ‘local’. A maioria era gente que não existe no meu planeta. Perguntava e me diziam que era fulano ou fulana do BBB, ou alguma mulher de jogador. Virou profissão. Se ‘deu’ para algum craque, todo mundo quer ver pelada, para conferir. Vejam o Adriano. O ‘imperador’ não deu aquela declaração que tapinha de amor não dói – quem nunca deu uns tabefes na sua namorada? A coisa é tão grave que Felipe Melo não vai mais precisar se esconder por causa do gol contra. Brunão roubou-lhe o holofote. Agora, guenta.