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Na intersecção dos opostos

Luiz Carlos Merten

07 Agosto 2007 | 05h09

Como imaginava, o dia de ontem foi desgastante para mim. Estou falando do ponto de vista das emoções. Fisicamente, eu vou me garantindo, andando feito louco (o que não costumo fazer em São Paulo). São pouco mais de 10h30 em Jerusalém e eu desço daqui a pouco para Tel-Aviv, para as reuniões do júri do 7º Festival do Cinema Brasileiro em Israel. Ontem, pela manhã, fui ao Yad Vashem, o museu do Holocausto. Quase tive um troço. A guia deixou para o final, até por sua localização, o monumento às crianças, construído por um casal cujo filho, um bebê – Uziel -, foi morto pelos nazistas. Marido e mulher foram separados, sobreviveram à guerra e emigraram para os EUA. Fizeram fortuna e construíram aquele memorial para lembrar o filho e 1,5 milhão de crianças que foram mortas pel,os nazistas. Você entra num espaço escuro cheio de velas que se multiplicam num jogo de espelhos. A sensação é de estar solto no espaço, entre milhares (milhões?) de luzes. O som é fornecido por vozes que dão nome às crianças mortas pelo nazismo. Os nomes e a idade que tinham ao morrer. Fiquei lá embaixo, nel suelo, como se diz. Não preciso nem dizer que chorei. Vocês me conhecem. À noite fui a Ramallah, para a exibição de Vinicius de Morais para os palestinos. Não havia muita gente na cinemateca de Ramallah, umas 40 pessoas, mas o significado da sessão foi imenso – a idéia de Schlomo Azaria, com apoio do embaixador Pedro Motta e da ministra conselheira do Escritório da Representação do Brasil Junto à Autoridade Palestina, Rosimar Suzano, é estender o festival, no ano que vem, até a Cisjordânia. Tomei outro choque. Tive de atravessar o muro que Israel construiu para isolar os palestinos. Os israelenses dizem que o muro é necessário para a sua segurança. Israelenses de esquerda e os palestinos dizem que é o muro da vergonha, nem um pouco diferente daquele que separava Berlim. Os ecologistas dizem que é uma agressão ao meio ambiente. É opressivo transpor aquele muro que, em certos ângulos, serpenteia numa extensão sem fim, cheia de curvas. Quando concluído, terá 700 km! Passado o muro, Ramallah, mesmo tendo sido preparada para ser a capital da Palestina, assemelha-se a muitas cidades brasileiras, por seus constrastes. Entra-se pela periferia. Não sei, mas me lembrou a periferia do Recife, aquele tipo de colorido e vitalidade. Na cinemateca, encontrei figuras como a diretora Buthina Canaan Khoury, autora de um filme, o documentário Women in Struggle, sobre quatro mulheres palestinas nas prisões de Israel. Embora reduzido, o público adorou Vinicius (mesmo que, para o pessoal de cinema, o personagem tenha sido maior que o filme). No fim da noite, entrei pela madrugada jantando, de volta a Jerusalém ‘Ocidental’, com os correspondentes da BBC Brasil e do SBT. Tive duas experiências radicais no mesmo dia. As duas faces de uma moeda chamada Oriente Médio. Não posso dizer que a noite passada mudou minha vida, mas com certeza foi reveladora. Yad Vashem foi construído como memorial para dar um rosto às vítimas do holocausto. Já disse da dor que foi, para mim, a imagem daquela menina deficiente carregada para a morte por dois brutamontes nazistas. Em Ramallah vi o rosto dos palestinos. Por certo que ali existem terroristas, mas não todos. É como andar nos morros do Rio. Nem todo o mundo é traficante. Vinicius veio ao mundo para ensinar que a gente deve dar e receber amor de volta, diz Maria Bethânia no documentário, citando os versos de Nature Boy. Gilberto Gil, mais empolado, diz que Vinicius vivia na intersecção dos opostos, buscando a harmonia. Foi assim que me senti ontem, em Yad Vashem e Ramallah.