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Na ‘Fordilândia’

Luiz Carlos Merten

13 Junho 2010 | 13h07

Estou na redação do ‘Estado’. Vim fazer a matéria de uma página que terminou caindo, ou foi jogada para a frente (quarta-feira, talvez). Aproveito para postar. Os domingos têm sido dias prazerosos para o cinéfilo que sou, porque, desde que voltei da França e retomei os filmes na TV, tenho sempre os filmes de John Ford que integram o festival que o TCM dedica ao Homero de Hollywood, nas segundas e terças de junho. Isso tem me permitido viajar na lembrança de obras que integram meu imaginário.  Amanhã, serão exibidos ‘A Conquista do Oeste’, com o magnífico episódio da Guerra Civil, e, na sequência, ‘Sete Mulheres’, recebido a pancadas na época do lançamento, mas hoje reconhecido como um belíssimo filme do mestre e uma de suas obrtas testamentárias – além de ter representado, para um último opus, uma inesperada mudança. Ford pode ter criado mulheres fortes ao longo de sua carreira, mas o universo do western é essencialmente masculino – ou não? – e é curioso que ele tenha se despedido com um filme sobre mulheres. Para terça-feira, mais dois, ‘Caravana de Bravos’ e ‘Depois do Vendaval’. O segundo é reconhecido como um dos maiores filmes de Ford e lhe valeu o último de seus quatro Oscars de direção (após ‘O Delator’, ‘Como Era Verde Meu Vale’ e ‘Vinhas da Ira’). Adoro ‘The Quiet Man’, que é uma idealização da Irlanda, terra de seus ancestrais, pelo grande diretor, mas não posso deixar de assinalar o que ele diz a Peter Bogdanovich, no livro com a entrevista que lhe concedeu. Ford diz que só não gosta de uma c oisa em ‘Depiois do Vendaval’ e é justamente do gesto de John Wayne, quando pega o dinheiro do dote de Maureen O’Hara, que causou toda aquela confusão, e o joga no fogo. Ford diz que é um desperdício, que o dinheiro deveria ter sido dado para caridade. Bogdanovich retruca que é um grande gesto e o fecho perfeito, além de atribuir ao personagem sua grandeza. Ford, a contragosto, termina concordando e até faz piada – afinal de contas, a quem eles dariam o dinheiro? Não a primaz da Irlanda, que já tem dinheiro sobrando e, se não ajuda os pobres, é porque prefere manter a fortuna a salvo na Igreja. No livro, o mestre também comenta ‘Caravana de Bravos’, o que me permitirá responder a uma pergunta que me foi feita, sobre ‘The Fugitive’ (Domínio de Bárbaros), que Ford adaptou de ‘O Poder e a Glória’, de Graham Greene, em 1947, com Henry Fonda como o padre perseguido por governo fascista na América do Sul e traído por amigo (pelas 30 moedas de Judas). Paráfrase bíblica e parábola política, ‘The Fugitive’ era um dos filmes preferidos do próprio Ford. Ele diz a Bogdanovich que, com ‘Carvana de Bravos’ e ‘Legião Invencível’ (She Wore a Yellow Ribbon) forma o trio de filmes que realmente, da concepção à finalização, chegaram mais perto do que queria. Gosto de ‘Caravana de Bravos’ e ‘Legião Invencível’, mas não tanto de ‘Domínio de Bárbaros’ e até não resisto a dizer que ainda bem bem que a maioria dos filmes de Ford não saiu exatamente como ele queria, porque saíram melhores. A parábola política  me incomoda pela solenidade e pela ausência de humor, um elemento essencial no estilo fordiano, mas me desagrada especialmente pelo que faz a fama do filme – a fotografia superelaborada de Gabriel Figueroa. O maior fotógrafo mexicano era um gênio da luz e do enquadramento, mas tenho cá comigo que seu estilo ‘pictórico’ é muito bom para cartões postais, mas artificializa boa parte dos seus filmes. Certo estava Buñuel, que deixava Figueroa armar o plano, a luz, e depois dizia – agora, esqueça tudo e vamos rodar de forma mais simples e direta, sem a ‘mierda’ desses cuidados visuais excessivos.

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