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Luiz Carlos Merten

06 Julho 2012 | 11h32

Entrevistei Walter Salles no começo da semana, por conta da próxima estreia – dia 13 – de ‘Na Estrada’. Em Cannes, já tivéramos – nós, a imprensa brasileira – um encontro com  o diretor para discutir sua adaptação do livro cult de Jack Kerouac. Desta vez, centrei fogo no que não havia abordado – o homoerotismo, com as cenas do triângulo formado por Dean, Sal e Marylou ( e os dois caras ficam a um milímetro de trocar um beijo na cama) e a outra, mais perturbadora ainda, do olhar (de inveja?) de Sal quando vê o Dean mandando ver no personagem de Steve Buscemi. Gosto demais do filme e do elenco, especialmente do Garret Hedlund, que faz um Dean comme il faut, vestindo a pele da sedução física e da moralidade dúbia (tolerante?) que o personagem criou para si mesmo. Garret é a alma de ‘On the Road’ e o eco final, quando o narrador, Sal, repete seu nome (Dean Moriarty, Dean Moriarty, Dean Moriarty…) me tocou, e dilacerou, de uma forma muito intensa. Aqueles caras não são gays, estavam transgredindo e o filme passa isso – a traição da amizade – como uma coisa dolorosa. Realmente, não entendo essa gente que acha o filme muito bonito, muito limpinho, mas sem alma. Vou devanear um pouco. Fui rever ‘O Deus da Carnificina’,. de Roman Polanski, e não posso deixar de constatar que, assim como Walter Salles se deixou possuir por Dean/Hedlund, Polanski não consegue evitar e se identifica com Christopher Waltz no seu desprezo pelos valores classe média do casal formado por Jodie Foster e John C. Reilly. Esse vira o grande saco de pancada do filme, muito mais do que em qualquer montagem que tenha visto da peça de Yasmina Reza (em Paris e São Paulo). De volta à conversa com Walter, ela evoluiu depois para filmes (e autores) que amamos. Kore-eda, Nuri Bilge Ceylan – ele acha ‘Era Uma Vez na Anatólia’ a prova definitiva de que o turco é um grande, imenso diretor – e Jia Zhang-ke. Walter lembrou que, em São Paulo, como integrante do júri da Mostra, teve a chance de conviver por uma semana com Jia. Conversaram muito (sobre cinema, mas não apenas) e o autor brasileiro guarda desde então um projeto que, espero, venha a realizar. Um livro,  e algo mais, sobre Jia. Walter fala em ir à China para retomar/aprofundar a entrevista e, pelo que entendi, fazer um documentário. Lembro isso porque estreia hoje, com o ‘Homem-Aranha’, o documentário de Jia sobre Xangai. É a nossa capa do ‘Caderno 2’ de hoje. O ‘amazing’, realmente espetacular Spider-Man, é estreia de massa (e eu gostei bastante do filme de Marc Webber), mas não descuido do Jia nem do seu filme cabeça, que reinterpreta a história da China (e seu cinema). Não me cobrem por que, mas estou me sentindo eufórico. Devem ser os filmes bons, que me deixam para cima.