Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Na corrida

Cultura

Luiz Carlos Merten

06 Fevereiro 2009 | 14h18

BERLIM – Olá, vocês provavelmente já sabem o que achei do thriller ‘Trama Internacional’, que abriu o Festival de Berlim, pela matéria de hoje do ‘Caderno 2’. Não tive tempo de postar nada ontem, emendando uma coisa na outra. Tinha textos para a edição do ‘Caderno’ (fora a Berlinale). Emendei o filme com a coletiva, tinha um texto para redigir em tempo mínimop e depois engatei um filme no outro. Apesar de uma cena espetacular de ação no Guggenheim Museum, em Nova York, não fiquei particularmente impressionado com o filme de Tom Tykwer nem com seu ataque à força dos bancos. Entrevistei hoje os dois, o astro Clive Owen e Tom Tykwer. Sentei-me ao lado de Clive, o que seria motivo mais do que suficiente para um monte de gente querer fazer transmigração de corpo comigo (se não, me matar…). O cara é legal. Rendeu uma entrevista boa que vai ficar para a estréia do filme no Brasil, em março. À noite, logo após o documentário ‘Terra Madre’, de Ermanno Olmi, numa sessão intitulada Berlinale Special, tivemos a abertura da competição com ‘Ricky’, de François Ozon. A história do bebê que tem asas e voa joga a carta do realismo fantástico, que Ozon usa para falar de família, para reafirmar seu tema da impossibilidade de existir amor feliz e, o que me pareceu mais interessante, para fechar sua trilogia sobre a morte. Depois de ‘Sob a Areia’ e ‘O Tempo Que Resta’, ele queria filmar a morte de uma criança. Não sou contar detalhes da história, mas há um twist na trama, um desaparecimento do bebê, que permite ao diretor enfocar o assunto. Não fiquei plenamente convencido com o filme, mas ele possui certo charme. Hoje pela manhã, a dinamarquesa Annette K. Olsen mostrou ‘Lille, ou LIttle, Soldier’, sobre essa mulher que foi soldada na guerra – Iraque ou Afeganistão, ela não deixa claro – e volta para casa para ser motorista do pai, cujo negócio é explorar a prostituição feminina (de mulheres africanas ‘exóticas’). Berlim está promovendo uma retrospectiva do formato 70 mm, com filmes como ‘Lawrence da Arábia’, ‘Ben-Hur’, ‘A Noviça Rebelde’, ‘2001’, Lord Jim’ etc. Na coletiva do júri, a presidente Tilda Swinton disse que não acredita nessa coisa ‘maior que a vida’ – Bigger than Life é o título da retrospectiva – e prefere um cinema feito de pequenos toques. Os filmes de Ozon e Annette encaixam-se na categoria, o dinamarquês é bom, mas não muito, e os maiores aplausos até agora foram para ‘O Leitor’, de Stephen Daldry, que está estreando hoje no Brasil. Gosto muito de ‘Billy Elliott’ e ‘As Horas’. Fui ver ‘O Leitor’ cheio de expectativa, mas com certo receio. Afinal, um monte de gente me dizia que o filme é ruim. Não sabia nada da história. É um filme de ‘estrutura’, como ‘As Horas’, discutindo não propriamente o Holocausto nem os crimes do povo alemão sob o nazismo, mas tratando de temas como a Justiça e a responsabilidade individual perante não apenas esses crimes. Falando da grande história, Daldry e o dramaturgo David Hare, seu roteirista, falam de pequenas histórias. Ralph Fiennes e Kate Winslett, ela, principalmente, são show de bola e o filme tem umas três ou quatro cenas que me arrebentaram, além de uma participação esplêndida de Lena Olin, que não precisa mais do que cinco minutos, no desfecho, para confirmar que grande atriz pode ser. Já são cinco da tarde por aqui. Preciso almoçar, porque, afinal, saco vazio não fica de pé. Alimentado, vamos ver se volto para novos posts ainda hoje. Já fechei algumas entrevistas (Chabrol, Angelopoulos, Tavernier, Frears, Gus Van Sant etc) que estão me deixando nos cascos. Vir a um grande festival e perder a chance de falar com diretores como esses é coisa que me parece absurda. Eu preciso desses estímulos. Duplamente – como cinéfilo e repórter que sou.