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Festival do Rio (3)/Na corda-bamba equilibrista

Luiz Carlos Merten

06 Outubro 2015 | 10h53

RIO – Dois ou três dias sem postar. Estou validando um post que havia iniciado no domingo. No sábado, cheguei às 13 horas, uma da tarde, e permaneci no Odeon, agora Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, e lá fiquei até 11 da noite. Saí para um café, o almoço, uma caipirinha – que ninguém é de ferro – e emendei quatro filmes. Quatro! Havia perdido a Première Brasil na véspera e recuperei. Comecei com Betinho – A Esperança Equilibrista. Na saída da sessão, encontrei o diretor Vitor Lopes, que me disse que, há três anos, quando iniciou o projeto, era uma homenagem a um grande brasileiro, Herbert de Souza, o irmão do Henfil, que virou símbolo da luta pela anistia, durante o regime militar, na música de Aldir Blanc e João Bosco. Hoje, a efervescência deu ao filme sua grande atualidade. Lopes disse que foi parcimonioso na emoção. Eu chorei demais, mas o filme não é bom por ser emotivo. Também é, mas a complexidade da figura do retratado, o Brasil que ele encarnou, tudo me encantou. E Betinho, baluarte da ética, assumia quando errava – como quando aceitou dinheiro do bicho para ajudar aidéticos, como ele. Embora tenha contraído o virus por ser hermofílico, combateu o preconceito, batalhou uma saúde pública que moralizasse os bancos de sangue e assistisse os soros positivos. E o tempo todo o filme lembra que ele viveu nas corda bamba da morte. A morte também estava no centro de Já Sinto Saudades, o último dos quatro filmes que vi no sábado. Ontem, segunda-feira, entrevistei a diretora Catherine Hardwicke, que já havia encontrado aqui mesmo no Rio, anos atrás. Catherine formatou a série Crepúsculo, escolhendo o elenco e realizando o primeiro filme. Poderia ter feito o 2, mas, na época, estava querendo mudar e admite que avaliou errado. Achava que com o sucesso de Crepúsculo, seria fácil para ela conseguir financiamento para novos projetos. Tem sido uma guerra. Já Sinto Saudades é sobre duas grandes amigas, que acompanhamos da infância até o momento em que a personagem de Toni Colette descobre ter um tumor maligno. Ela faz químio, perde o cabelo. A doença alastra-se, atinge o seio. Ela faz mastectomia, corta os dois. Sem cabelo e sem seios, privada do que, para ela, eram os signos da sua identidade/feminilidade/sensualidade, pira. Arranja um amante. Drew Barrymore faz a amiga, Dominic Cooper, o marido. Toni é uma p… atriz. Dominic é uma surpresa tão grande como o próprio filme. Adorei essa (re)visão do desejo feminino feita por uma mulher. Beatriz, de Alberto Graça, na Première Brasil, também aborda o tema, mas o ângulo masculino não me convenceu. Mulher, Marjorie Estiano, submete-se às fantasias do marido escritor como forma de fornecer combustível para a ficção que ele escreve. Ela se degrada, ele vicia-se, ambos tentando segurar a onda de uma relação que implode. ‘Se tudo o que faço é por amor, não vou terminar me odiando? Odiando você?’, ela se pergunta. E boa parte do sexo ocorre em Lisboa, num bonde – o bonde chamado desejo? Falta um filme para matar o sábado – Argentina, de Carlos Saura. Vou falar em outro post. Aguardem, que esse está enorme.