Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Na boca, não

Cultura

Luiz Carlos Merten

10 Janeiro 2009 | 23h12

Não quero ficar bancando o menino birrento, até porque seria um senhor birrento. Chega com os Coen, mas o Leandro Moraes vai gostar deste post. Duas epifanias, e na mesma semana, a primeira do ano – este 2009 está se antecipando muito bom para mim. Todo mundo já sabe que adorei ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’ e eu acrescento qe amanhã estarei torcendo no Globo de Ouro pelo filme de David Fincher com Brad Pitt, para que ganhe todos os prêmios a quem direito. Mas, gente, assisti hoje de manhã a ‘Beijo na Boca, não’, um Resnais de 2003, de cuja existência nem sabia. Espero que vocês não pensem que estou me achando, mas graças a uma dupla gentileza, das Cinnamonn Girls – Lia, Mona, Marione e as outras – e da Pandora/Belas Artes -, pude assistir hoje pela manhã à opereta de Resnais, numa sala só para mim. A música sempre foi importante no cinema de Resnais – basta fechar os olhos e eu consigo ‘ouvir’ os temas de Giovanni Fusco e Georges Delerue para ‘Hiroshima, Meu Amor’ e a genial pçartitura de Stephen Sondheim para ‘Stavisky’. Mas Resnais descobriu o cinema cantado, o seu cinema cantado, com ‘On Connait la Chanson’, que demorou para estrear no Brasil (com o título de ‘Amores Parisienses’). No ano passado, tivemos ‘Coeurs’, literalmente ‘Corações’, que se chamou ‘Medos Privados em Lugares Públicos’. Devo ter perdido o bonde da história, porque fui atropelado ao saber da estréia deste Resnais, de cuja existência, repito, sequer suspeitava. O filme é de 2003 e sua história passa-se em 1925, ano em que estreou a opereta que lhe deu origem. Um filme de amor – como ‘Hiroshima’ e ‘Marienbad’ -, interpretado pelos atores ‘fiéis’, os fetiches, do grande diretor (Sabine Azéma, Pierre Arditi, Lambert Wilson, aos quais se soma Audrey Tautou). A trama parece nada. Sabine é casada com Arditi, que não sabe que ela já teve um marido norte-americano. O casamento nunca foi validado na França, portanto, ele não precisava saber. Mas o problema é que Arditi tem uma tese ‘científica’ sobre o amor. Como os metais, que só se misturam uma vez, sob pena de perder a ‘pureza’, as uniões também são indeléveis. Uma mulher fica marcada pelo primeiro homem. Eis que Arditi recebe seu novo sócio dos EUA e o cara, quem é? O ex de Sabine. A confusão está formada. Parece nada, mas é tudo. E o que mais impressiona é – vou empregar a palavra, sem medo – a perfeição formal ‘Pas sur la Bouche’ é uma jóia. Não sei se estréia dia 16 ou 23. Se for na próxima sexta, entra com ‘Benjamin Button’. Aguardem!