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Na ante-sala dos ‘Fofos’

Luiz Carlos Merten

05 Julho 2009 | 14h28

Mal tive tempo de entrar no blog hoje para validar alguns comentários. Estou na redação do ‘Estado’ desde cedo, com um monte de matérias para a edição de amanhã. Fui ontem ao teatro, ver ‘Memória da Cana’, pelo Fofos em Cena. Newton Moreno adapta ‘Álbum de Família’, transpondo a peça de Nelson Rodrigues para o Nordeste. Embora sem muito entusiasmo pelo elenco, estava gostando no começo. Não conhecia o espaço do Fofos e achei bem interessante. Na entrada, o sujeito que recolhia os ingressos avisou que íamos ver a peça de dentro. Fui com meus amigos Dib Carneiro e Cláudio Fontana. O teatro havia sido dividido como os cômodos de uma casa e eu estava gostando daquilo. Até comentei com o Dib, depois, que trabalha numa adaptação de ‘Crônica da Casa Assassinada’, para Gabriel Villela, que nunca havia me dado conta de quanto o universo mórbido e repressivo de Nelson, pelo menos o do ‘Álbum’, está próximo do de Lúcio Cardoso. Quando caíram as ‘paredes’ e a ação se transportou para o canavial, o encanto, como por milagre (ou maldição?), se quebrou para mim. Entendi o partido do autor. Newton me lembrou Douglas Sirk, sobre quem falei ontem (a propósito de ‘Imitação da Vida’, que vi na TV paga). Sirk buscava transcender o melodrama pela via da tragédia grega, baseado no fato de que, em seus melôs, como nas tragédias, tudo se passa em família e ela é a representaçãO do mundo. Newton Moreno deve ter partido do mesmo princípio, o substrato trágico de Nelson, mas não estou muito seguro de que a passagem do universo urbano (e carioca) para a casa grande e senzala, via Gilberto Freyre, funcione muito bem. Achei o sincretismo daquele final meio caótico, mas enfim… ‘Álbum de Família’ teve versão cinematográfica em 1981, com direção de Braz Chediak. Dina Sfat, Lucélia Santos, Rubens Correia e Wanda Lacerda formavam o super-elenco, mas não posso opinar, porque nunca vi. É uma das raras transposições de Nelson para cinema – e um dos filmes do diretor – que nunca vi. De Chediak, vi praticamente tudo. Seus filmes baseados em Plínio Marcos (‘Navalha na Carne’ e ‘Dois Perdidos’), seu primeiro Nelson (‘Bonitinha mas Ordinária’) etc. Encontrei na ante-sala do teatro o Diego, leitor do blog. Não o encontrei na saída para perguntar o que tinha achado. E aí, Diego, gostou? Mais do que eu, talvez?