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Luiz Carlos Merten

17 Junho 2011 | 09h59

Aldir Mendes e Paulo Sales pegam carona no meu post sobre ‘A Síndrome de Caim’ para falar de um Brian De Palma do qual gostam muito, ‘Carlito’s Way’, O Pagamento Final. Lembro-me de cenas poderosas, mas ainda acho que a melhor parceria do diretor com Al Psacino foi ‘Scarface’. E, de alguma forma, detesto admiti-lo, ‘Pagamento Final’ foi o único filme que me colocou frente a frente com De Palma. Ele veio ao Brasil para fazer a promoção. Encontrei-o num hotel de Copacabana, acho que o próprio Copa. Às vezes me confundo e talvez tenha sido o Sofitel, mas não – lá, além dos franceses que visitam o País, entrevistei Oliver Stone. Seja como for, era Rio, um calor do cão, 40 graus e o De Palma todo de preto, cachecol, blusa de lã ou pelo menos um casaco pesado. Dava ao cara uma aparência sinistra, como o mais sinistro dos seus personagens. Não creio que tenha feito uma boa entrevista com ele. Estava muito mal – admito – impressionado. Foi o oposto do meu encontro com James Gray, dos meus encontros. Adoro James Gray e ele adora ‘Rocco e Seus Irmãos’, de Luchino Visconti, o que, de alguma forma, no meu imaginário, nos torna próximos. Encontrei-o sempre em Cannes, com trajes leves de verão, sorridente, curtindo a vida. A conversa fluía, naturalmente. Com De Palma, foi aquela coisa truncada. Não abro mão de falar com diretores, atores. Neste fim de semana, espero estar 100% para ir ao Rio para a junkett de ‘Transformers’, que traz Michael Bay e Josh Duhamel ao Brasil. Entendo perfeitamente os coleguinhas que não visitam sets nem falam com diretores para não se deixar ‘influenciar’. Eu prefiro correr o risco, e depois o desejo de conhecer gente, de inquirir, é inerente ao jornalismo. Sou jornalista de cinema, isso é o que sou. Brian De Palma, o homem, me impressionou mal. Até hoje me pergunto se isso interveio na apreciação de sua obra. Não creio. Gosto de muita coisa que ele fez, mas não gostei particularmente de ‘Redacted’, mesmo reconhecendo que o filme expõe, com muita propriedade, o voyeurismo do autor. Que fim levou ‘Redacted’? Nos cinemas, acho que não estreou, a menos que fosse durante alguma viagem minha. Em DVD? Nunca vi nas lojas. Falei ontem no voyeurismo de De Palma. Na ‘Síndrome’, Carter (John Lithgow), seguindo os passos do pai, Dix (Lithgow, de novo), monitora a própria filha, cercando a garotinha de câmeras que a vigiam o tempo todo. Parece gratuito, mas não é. E eu amo, esqueci-me de dizer ontem, o primeiro ‘Missão Impossível’. Gosto da série toda e o 1 a gente não esquece. De Palma é cinéfilo, obcecado por imagens emblemáticas. O assassinato na ducha, a escadaria de Odessa. Em ‘Missão Impossível’, na cena clean do laboratório – e o cinema dele nunca é clean -, De Palma homenageia Stanley Kubrick (e ‘2001’). Devo ao sinistro homem de preto, my man in black, mais emoções do que sou tentado a reconhecer num primeiro momento.

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