Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘My Joy’

Cultura

Luiz Carlos Merten

10 Outubro 2010 | 11h46

Cheguei ontem à noite em casa e digitei aquele post no laptop de minha filha, no qual são necessárias muitas operações para colocar cedilha, crase, acento circunflexo. Depois de se acostumar, fica fácil, mas foi duro. Ia reeditar o post que começa sobre ‘Uma Sepultura na Eternidade’, colocando o acento em metrô, principalmente – ‘a obra no metro de Londres’ não dá -, mas desisti. Os posts são o que são. Me lembram a piada de Guimarães Rosa sobre o fósforo. ‘Deflagrado, perde o uso.’ Não faz sentido transformar um post em work in progress. É melhor escrever outro, que é o que faço. Gostei muito do filme de Amos Gitai e é impressionante como ele filma bem. Ainda não elaborei direito o que vi, mas, assistindo ontem a ‘Roses à Crédit’, eu me lembrava de ‘A Suprema Felicidade’, de Arnaldo Jabor. Tenho de aprofundar o por quê dessa relação que fiz. Adoro Léa Seydoux, ‘a bela Junie’ de Christophe Honoré, filme do qual também participava Grégoire Leprince-Ringuet, seu marido no filme de Gitai. Gosto deste ator jovem, que integra o elenco de ‘La Princesse de Montpellier’, que Bertrand Tavernier adaptou de Madame de Lafayette. Em Cannes, em maio, cruzava a Croisette quando Leprince-Ringuet passou por mim, anônimo e sozinho. A gente só se arrepende do que não faz. Estava correndo, segui adiante, mas bem que gostaria de ter falado com o cara. Também me arrependo agora de não ter falado com Amos Gitai, homenageado no Festival do Rio. Gitai tem a cara da Mostra de São Paulo. Já veio tantas vezes aqui, teria sido interessante cotejar suas impressões do Rio, não para comparar, mas para sentir, do ponto de vista dele, como é o público de cada cidade. Dei uma olhada rápida na programação da Mostra. Estava esperando que Leon Cakoff trouxesse ‘Carlos’, de Olivier Assayas, na íntegra de 5 horas, mas o filme não está listado – nem na versão reduzida de 2h30. É pena, porque os cinéfilos paulistanos vão perder um filmaço. Me assusta um pouco a perspectiva de assistir à versão do diretor de ‘Até o Fim do Mundo’. Sempre achei o pior filme de Wim Wenders e a melhor prova de que, no caso dele,  não vale a máxima de que até os filmnes ruins são bons. A versão que vi era ruim mesmo. Agora com 280 minutos, 4h40,  aquele horror vai adquirir um sentido? Espero – até para justificar o esforço. Mas tenho de agradecer ao Leon. Adoro correr riscos, vocês sabem. No ano passado, escrevi que um filme das mostras paralelas, que nem havia participado da competição, havia sido o melhor do Festival de Cannes – ‘Independencia’, do filipino Raya Martin. Este ano, o júri presidido por Tim Burton fez escolhas ousadas e eu me alegrei por isso, mas ignorou o melhor filme em concurso – nem para prêmios secundários – e isso foi imperdoável. Não conheço ninguém que tenha tido uma impressão tão funda de ‘My Joy’, do ucraniano Sergei Loznitsa. Fiquei louco quando vi o filme, embarcando na sua estrutura complexa, nos limites da ficção e do documentário, mas principalmente fiquei perturbado com aquela visão das Rússia – da Ucrânia – pós-comunista. Deus me livre de botar os pés na terra de meu amado Dovjenko – autor justamente de ‘A Terra’, um dos meus filmes cults -; prefiro a favela mais violenta do Rio. Preparem-se porque a barra de ‘My Joy’, Minha Alegria, é pesadíssima, mas a construção do filme é gloriosa. Tem um plano sequência em que o personagem atravessa uma feira que me pareceu o ápice de Cannes 2010 – como a Pietà de ‘O Senhor do Labirinto’, quando Irandhir Santos acolhe nos abraços o corpo de Flávio Bauraqui, como Artur Bispo do Rosário, foi a melhor coisa da Première Brasil do recente Festival do Rio (mas ambos, Loznitsa e o filme de Geraldo Motta, foram ignorados pelo júri oficial). Anotem aí. ‘My Joy’. Eu mesmo estou louco para rever o filme, na expectativa de que confirme o impacto que me causou.

Encontrou algum erro? Entre em contato