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Luiz Carlos Merten

12 Março 2007 | 19h17

Estou desde sábado para falar uma coisa. Fui ver na sexta à noite My Fair Lady, o musical. Os leitores deste blog já sabem. Não sou o maior fã do gênero cantado e dançado. Sempre gostei mais de westerns e não trocava John Wayne por Gene Kelly nem Fred Astaire. Fazer o quê? Ninguém é perfeito e eu, decididamente, não sou. O que quero dizer é que gosto – muito – de poucos musicais. Três do Donen, Cantando na Chuva, Sete Noivas para Sete Irmãos e Cinderela em Paris. dois do Minnelli, O Pirata e Sinfonia de Paris, um do Sidney, Dá-Me Um Beijo. E My Fair Lady, do Cukor, que eu amo. Quero dizer, portanto, que meu parâmetro para a avaliação de My Fair Lady era simplesmente um dos maiores musicais do cinema. Também havia visto a versão brasileira antiga, com Bibi Ferreira e Paulo Autran. E não é que gostei? Quero dizer – posso fazer meus reparos, mas certamente é melhor do que O Fantasma da Ópera, Chicago e Sweet Charity (o pior de todos – este, eu confesso que achei um horror). Um dos problemas é, para mim, o que para os outros é qualidade. Nem Rex Harrison, que fez o Professor Higgins no cinema (e ganhou o Oscar), nem Paulo Autran eram cantores. Eles recitavam as canções. Daniel Boaventura tem um vozeirão. As novas versões das canções foram ajustadas para isso. Tem momentos em que o que eu acho que antes era fina ironia, com Harrison e Autran, agora virou agressão, pura e simples, quando Higgins destrata (e maltrata) Elisa Doolitlle. Enfim, são os tempos. Mas acho a montagem legal (cortava algumas coisas do segundo ato, mas aí é o meu gosto pessoal) e acho a história linda. É aqui que chego aonde queria – ao filme. Em 1964, quando Cukor fez My Fair Lady, o musical já havia virado superprodução – e faturado, havia pouco, um Oscar com Amor, Sublime Amor (West Side Story). My Fair Lady ganhou em 1964, A Noviça Rebelde em 1965, Oliver!, em 1968 e Cabaret, em 1972. Mais recentemente, Chicago ganhou. Esqueço se houve algum musical vencedor entre Cabaret e Chicago. É muito prêmio. My Fair Lady era para ser um filme de prestígio da Warner, planejado para dar certo. Jack Warner vetou Julie Andrews, que havia feito a peça, porque não era uma estrela. Impôs Audrey Hepburn, que é, para o meu gosto, uma Elisa maravilhosa. Julie foi fazer Mary Poppins na Disney e ganhou o Oscar em desagravo. São historinhas do Oscar. My Fair Lady ganhou oito prêmios, entre eles melhor filme, diretor e ator, mas não ganhou atriz nem canção – que foi Chim Chim Cheree, de Mary Poppins. Acho que não existem muitos filmes perfeitos e a imperfeição, incorporada ao processo criativo, contribui para a grandeza de obras-primas definitivas do cinema (os filmes de Roberto Rossellini, por exemplo). My Fair Lady é o que chamo de filme perfeito. É genial, como experiência audiovisual. E a ironia do Cukor… O coro canta – poor Professor Higgins, como sofre o Professor Higgins tentando transformar essa Elisa em uma dama. Mas quando o coro canta isso Elisa está com todos aqueles aparelhos ligados à boca para falar direito e ele está comendo, feliz da vida. Mais tarde, quando o Coronel Pickering e ele comemoram sua vitória e Elisa desabafa, diz que é gente, que Higgins não está levando em conta os sentimentos dela, sua reação fica mais forte. Cukor foi um grande criador de personagens femininas. Amava as mulheres apaixonadas e, ao contrário de Truffaut, o romântico que desconfiava do amor, Cukor não desconfiava de suas mulheres. Talvez fosse coisa de um gay assumido, mas Elisa, mesmo esbravejando, no final submete-se por amor e leva ao Professor Higgins o seu chinelo. É um filme lindo, mas eu sempre acho que há, naquela exuberância toda, alguma coisa de triste. Faço sempre uma ponte meio maluca com Losey, o autor das relações complicadas, de submissão e dominação. Losey criticava o casal do ponto de vista ideológico. Dizia que não existiam relações decentes no capitalismo. Para prová-lo, fez filmes onde sexo, afeto e dinheiro estão ligados. Richard Brooks, em Tempo para Amar, Tempo para Esquecer (Happy Ending), também criticou o casamento, dizendo que é a mola propulsora do capitalismo. Quem casa quer casa e isso impulsiona o consumo, que faz rodar a engrenagem do capitalismo. Elisa se submete e há uma sombra no rosto de Audrey Hepburn, alguma coisa amarga no sorriso dela. Os críticos diziam que Cukor vendia ilusões. Acho que ele era muito mais crítico (e político) do que muito autor que posava de esquerda. Veja o filme, disponível em DVD, e curta os numerosos extras do disco duplo. Aliás, quando falo mal do Scorsese mas digo que ele merece respeito, é um pouco por isso. Scorsese está por trás da grande restauração de My Fair Lady, com apoio do American Film Institute. Acredito piamente quando ele diz, falando do Cukor, que o musical é uma das formas artísticas mais genuinamente americanas que existem.

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