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Luiz Carlos Merten

16 Maio 2007 | 12h23

CANNES – Por onde começo? Pelo primeiro filme ou pela coletiva do júri? Vamos ao filme. The Blueberry Nights abre daqui a pouco, oficialmente, o 60º Festival de Cannes. Já houve uma sessão de imprensa, pela manhã, seguida de coletiva. Vieram o diretor Wong Kar-wai e a dupla principal, Norah Jones e Jude Law. Muitos coleguinhas, incluindo do Brasil, torceram o nariz. Eu gostei! Elaine Guerini foi mais longe – queria comer torta de mirtilo, beijar o Jude Law. A torta é muito importante. Blueberry quer dizer mirtilo, seja lá o que isso significa. Me informam que é uma fruta parecida com amora. Wong Kar-wai queria que a torta fosse de strawberry (morango), mas aí perguntou a Norah qual a torta que ela mais odiava. Norah respondeu que a de mirtilo. Kar-wai a fez comer quilos dessa torta. Pelo visto, é um autor que tortura suas mulheres para deixá-las mais belas. Norah é cantora, estreando no cinema. Jotabê Medeiros foi vê-la num show em New Orleans. Voltou encantado. Norah jura que nunca havia pensado em ser atriz. Um dia lhe liga este cara de Hong Kong. Ela achou que Kar-wai queria usar sua voz no filme, alguma canção, quem sabe. Ele queria sua presença física. Queria que ela fosse atriz e, para marcar bem, disse que não ia usar nenhum disco dela na trilha. Norah assistiu ao DVD de In the Mood for Love (Amor à Flor da Pele). Embarcou na hora. Kar-wai continua in the mood for love. My Blueberry Nights conta a história dessa dupla. Encontram-se no café que Jude Law possui. Ambos foram abandonados. Estão vulneráveis, emocionalmente. Ela desmaia de bêbada (e de tanto comer a tal torta de mirtilo). Ele, obedecendo a um irresistível impulso, a beija. Aguardem – este beijo vai entrar para a história. Corrijam-me, se estiver errado, quando o filme estrear – no Brasil, será distribuído pela Europa. Passado esse primeiro movimento, Jude fica preso àquele balcão e Norah cai no mundo. Atravessa os EUA escrevendo cartas para ele. A distância, às vezes, aproxima as pessoas. Muita gente que está próxima, fisicamente, vive numa galáxia distante, do ponto de vista afetivo e emocional. Norah, na estrada, é confrontada com várias histórias de perda – de amor, de dinheiro, da própria vida. É preciso tudo isso para que ela ganhe alguma coisa. Wong Kar-wai já fez este filme. Literalmente. Foi um curta de 6 minutos com Tony Leung e Maggie Cheung, oferecido como bônus no DVD de Amor à Flor da Pele. Para seu primeiro filme em língua inglesa, ele retomou o assunto. É o mesmo, mas diferente. Outra língua, outra cultura, outra paisagem. Vão ser necessários muitos posts para falar de My Blueberry Nights. Kar-wai filmou em cinemascope. Formato widescreen. A tela larga não parece a mais indicada para uma história tão intimista. Como no caso de certos autores que usam o plano contínuo, ou a profundidade de campo, o espectador constrói seu plano. Saí do cinema nas nuvens. Espero que vocês tenham a mesma sensação que eu.