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Luiz Carlos Merten

15 Setembro 2006 | 14h04

Conversei anteontem pelo telefone com o maestro Jamil Maluf, que, à frente da Orquestra Sinfônica de Repertório, apresenta hoje no Teatro Municipal, a partir das 21 horas, com repetição no domingo, às 11 hotras, mais um Cinema em Concerto. O evento é anual e ocorre desde 1994, mas houve algumas falhas e só foram realizados nove, até agora (informação do próprio maestro). A idéia é mostrar como a orquestra sinfônica interage com o cinema, ajudando a construir cenas antológicas mesmo que as partituras não tenham sido especialmente compostas para os filmes. É o caso da abertura do programa desta noite, dedicado a Dimitri Shostokovich. Após uma making of, mostrando o composditor no trabalho, serão mostradas cenas de O Encourçado Potemkin, o monumento do Eisenstein (a escadaria de Odessa, claro) e de de dois filmes de Grigori Kozintsev (Hamlet e Rei Lear), com acompanhamento sinfônico. Shostakovich compôs as partituras para os filmes de Kozintsev e, para dizer a verdade, ele começou no cinema compondo o acompanhamento para o filme mudo de Kozintsev e Trauberg, A Nova Babilônia, de 1929. O caso de Potemkin é diferente. Shostakovich não compôs para o filme, como fez Prokofiev em Alexandre Nevski, mas movimentos da 5ª e da 11ª Sinfonias se tornaram a trilha ‘oficial’ do filme. O curioso é que o segundo movimento da 11ª também foi usado por Vittorio De Sica em O Condenado de Altona. De Sica ganhou duas vezes o Oscar nos anos 60 e 70, por filmes popularescos como Ontem, Hoje e Amanhã e intelectualmente ambiciosos, mas um tanto equivocados, como O Jardim dos Finzi Contini (onde o ponto não é tanto o sacrifício dos judeus na conivência do fascismo com o nazismo e sim, a perda do estilo aristocrático daquela família). O Condenado de Altona, de 1962, baseia-se em Sartre e discute o ressurgimento do nazismo, que assombrava o cinema italiano no começo daquela década. O filme é ruim, o universo de Sartre não é o de De Sica (talvez seja, um pouco, em Umberto D), mas com todos os defeitos é um filme que fica na memória e estimula a polêmica. O que fica na memória são as cenas com acompanhamento também da 11ª Sinfonia de Shostakovich.