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Luiz Carlos Merten

08 Setembro 2008 | 11h59

Fui assistir ontem à tarde a ‘Muriel’ e tenho de admitir que fiquei bem desconcertado. Demorou para cair a ficha. Era o único filme de Resnais, entre curtas e longas, que eu nunca tinha visto e, embora eu estivesse admirando o trabalho de ouriversaria da montagem, não estava conseguindo entrar no espírito da coisa. Tive de quebrar muito a cabeça para colocar alguma ordem no que me propunham o Resnais e seu roteirista, Jean Cayrol (um escritor que, ao contrário de Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet e Jorge Semprun, eu nunca li). ‘Muriel’ é ‘Hiroshima, Meu Amor’ sem as cenas do passado. Como uma espécie de ‘Boulogne, Meu Amor’ – Boulogne sur Mer mas sem mar –, o tema é a permanência e, talvez, a superação do passado (‘Le Temps d’Un Retour’), mas ele não aparece e é referido somente por meio de diálogos. O curioso é que eu estava incomodado pelo fato de as imagens me remeterem ao teatro da família de ratos de ‘Império dos Sonhos’, de David Lynch, e vocês sabem como eu impliquei com aquele filme. Não atinava por quê, mas era o que me vinha. Finalmente descobri o motivo. Duas cenas são (foram) fundamentais. Uma delas é o diálogo sobre a casa que não pode ser habitada porque ‘desliza’. O próprio filme faz esse movimento. É um filme que também desliza e, por esse motivo, se ‘Hiroshima’ é um filme sobre a decisão,. ‘Muriel’ é seu reverso, sobre a indecisão, com todo aquele vaivém de personagens que mentem, trapaceiam, escondem, jogam etc. A outra é uma cena de refeição em que, de repente, Delphine Seyrig – acho que é ela – descerra uma cortina, como se aquilo fosse um teatro. Independentemente de a cena ter me lembrado um momento famoso de ‘O Discreto Charme da Burguesia’, de Buñuel, acho que toda a essência de ‘Muriel’ está ali, naquele teatro que o Resnais arma. Nada é o que parece ser, tudo é fake em ‘Muriel’, menos o mal-estar que o filme foi me causando e que tem a ver com o trauma passado de Bernard, o enteado de Muriel. A tortura da jovem argelina – morta, viva, doente? – o marca de tal maneira que ele faz aqueles filmes, preserva aqueles sons e, no limite, mata o antigo parceiro que foi testemunha da barbárie. Confesso que o filme tem coisas que, até agora, me escapam – por que aquele cara fica cobrando de Bernard um marido para a sua cabra? Fazia tempo que um filme não me deixava tão sem chão, no sentido de eu não conseguir refazer o ‘meu’ filme a partir do que havia visto, fosse para gostar ou não. Não sei se vou ter tempo, mas, de qualquer maneira, tenho o DVD – ‘Muriel’ é um filme que eu vou ter de rever.

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