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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2008 | 19h07

Tenho de liquidar algumas dívidas, antes de fechar 2008 no blog fazend a minha retrospectiva de fim de ano. Felipe Brida, por exemplo, me cobrou – mais de uma vez – agum comentário sobre ‘Munique’. Se gosto do filme de Steven Spielberg? Sempre tive um sentimento ambivalente em relação ao diretor. Gosto de ‘Louca Escapada’, de ‘ET’, entendi – e apreciei – melhor ‘A Cort Púrpura’ quando revi o filme na TV norte-americana, durante uma dessas junketts. Não foi por esnobismo, mas por necessidade de prestar mais atenção no diálogo em inglês, sem as benesses – o conforto? – da legenda. Adoro a série ‘Indiana Jones’ – e daí que ‘O Reino da Caveira de Cristal’ seja inferior aos outros três? Continua sendo divertido… Mas não consegui ‘entrar’ em I.A. – Inteligência Artificial’, o filme ‘kubrickiano’ de Spielberg, e também não gostei de ‘Minority Report’, que tem aquele subtítulo, ‘A Lei-qualquer coisa…’, nem consegui apreciar ‘Catch Me If You Can’, que tenho sempre a tendência de rebatizar como ‘Agarra-ME, Se Puderes’, mas não, porque o filme com este título é aquele do Hal Needham com Burt Reynolds. Lembro-me que, certa vez, falei mal de Spielberg nos filmes na TV do ‘Caderno 2’, e recebi uma carta desaforada de leitor, dizendo que eu devia limpar a boca antes de falar do ‘santo’ nome de Spielberg. Na época, como crítico que se preza, devo ter aplacado minha – má – consciência acusando o leitor de ‘colonizado’, ou coisa e tal. Algo mudou quando vi ‘O Terminal’ num cinema de shopping nos EUA, em plena campanha de (re)eleição de George W. Bush. A platéia reagia ao filme de uma forma que me contagiou. Cheguei a pensar que Bush talvez pudesse não ser (re)eleito. Não estava contando com a força do eleitorado conservador do Meio-Oeste, que apoiou o presidente por mais quatro anos, iludido por seu discurso patrioteiro. Logo em seguida vieram ‘Guerra dos Mundos’, adaptado do livro de H. G. Wells que já fora filmado por Byron Haskin nos anos 50, e ‘Munique’. Esses três filmes, aparentemente disparatados em forma e conteúdo, em estilo e temas, formam para mim uma trilogia de rara coerência e integridade e o comentário mais radical de Hollywood a Bush e à sua retórica pós-11 de Setembro, embora o nome de W. nunca seja citado (nem a data fatídica). ‘Munique’ me fascina desde a fala de Golda Meir naquela reunião de gabinete, em Israel, quando se discute, eticamente, o direito de o Estado vingar-se da morte de seus atletas na Olimpíada de 1972. O que se segue é a mais clara exposição que eu já vi do feitiço que vira contra o feiticeiro – o agente israelense, de tanto caçar e matar terroristas, perde a alma. Já era o tema de ‘O Terminal’. O agente da imigração que fechava as fronteiras dos EUA para Tom Hanks na verdade estava indo contra o princíopio fundador da ‘América’. Spielberg ganhou duas vezes o Osdcar – por ‘A Lista de Schindler’, ue tem cenas impressionantes, e por ‘O Resgate do Soldado Ryan’, mas desembarque dos aliados por desembarque, na França, eu prefiro ‘O Mais Longo dos Dias’, a versão de Zanuck, dos anos 60. Outro Spielberg, mais maduro e crítico, surgiu com a ‘trilogia’. ‘O Reino da Caveira de Cristal’ foi um inesperado – para mim – recreio. Nenhum outro filme recente de Hollywood me desperta maior curiosidade do que o novo Spielberg, ‘Walkirie’, com Tom Cruise. O filme está apontado para fevereiro. Tenho a expectativa de que passe no Festival de Berlim. Depois de ‘Munique’, vai ser o teste para eu saber se Spielberg é mesmo tão grande quanto hoje me parece.