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Cultura » ‘Múmia’, ruim mas boa

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Luiz Carlos Merten

29 Julho 2008 | 16h09

Fui ver pela manhã ‘Múmia – A Tumba do Imperador Dragão’, terceiro filme da série com Brendan Fraser. É ruim, embora menos do que o outro Brendan Fraser já em cartaz, ‘Viagem ao Centro da Terra’, que é horroroso. Não sabia que Rob Cohen era o diretor. O cara é louco por alta tecnologia. Sabia de seu interesse por arqueologia porque o entrevistei na época de ‘Stealth – Ameaça Invisível’. Engraçado é que, naquela época, ele disse que seu sonho seria fazer uma ficção científica na Lua, ou em Marte, mas terminou seguindo o caminho oposto e foi à China ‘eterna’. Entre parênteses, o senso de timing de Hollywood é notável – o filme com certeza foi feito para estrear simultaneamente com a Olimpíada de Pequim. Neste sentido, pode-se até fazer uma leitura ‘política’ da figura do general que quer ressuscitar o imperador dragão, que uniu a China, construiu a Grande Muralha e agora poderá conquistar o mundo. A China aposta nesta Olimpíada justamente para mostrar seu poderio, ou não? Independentemente disso, acho mais interessante assinalar três ou quatro coisas que me interessaram. Rick O’Connell, o personagem de Fraser, não deixa de ser um clone de Indiana Jones e é curioso que, como o quarto filme da série de Spielberg, ‘A Tumba’ seja centrado na relação pai/filho. Rob Cohen e seus roteiristas ressuscitam, com o imperador, o mito de Shangri-Lá e os dilemas da imortalidade. Ponto para eles. O problema é que a narrativa me parece frenética demais e o humor é pesado (para não dizer que o Cohen erra na dosagem). Mas tenho de admitir, sendo sincero comigo mesmo, que gostei de três coisas. As lutas de Jet Li (o grande) com Michelle Yeoh e Fraser, a segunda de uma brutalidade espantosa para o padrão de filme infantil, são bárbaras (em todos os sentidos). A outra refere-se às trucagens. Tem muito computador (demais, até), mas o confronto do Exército do imperador com os mortos da muralha, uma legião de pedra e outra de esqueletos, é claramente uma homenagem ao lendário Ray Harryhausen e eu viajei na lembrança dos ‘meus’ ‘Sinbads, que eram melhores. Entre mortos e feridos, o filme é ruim mas é bom. E a porta fica aberta para um quarto filme, no Peru. Vamos ter Rick O’Connell em Machu Pichu? Será mera coincidência, neste momento em que a Unesco desqualificou as ruínas como patrimônio da humanidade?