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Cultura » Mulheres que cantam, dançam, metem medo…

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Luiz Carlos Merten

05 Março 2008 | 17h11

Estou comendo bola, sem falar nada de dois ciclos – um começou ontem, o outro começa hoje e os dois têm ligação com o Dia Internacional da Mulher, no sábado. Todo ano é a mesma coisa. O 8 de março presta-se às programações temáticas e o cinema, então, oferece um campo inesgotável. Podem-se fazer ciclos de diretoras, roteiristas, atrizes, personagens etc. A Sala Cinemateca tenta fugir ao óbvio com seu ciclo que vai até dia 30, resgatando raridades. Hoje, por exemplo, passa ‘Juliana do Amor Perdido’, de Sérgio Ricardo, o cantor e compositor de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ (‘Te entrega/Corisco…’) que também dirigiu uma pequena jóia do cinema brasileiro no começo dos anos 60, aliás duas, o curta ‘O Menino das Calças Brancas’ e o longa ‘Este Mundo É Meu’. Ainda entre as raridades, fora de circuito mesmo em salas alternativas, estão ‘Sangue de Pantera’, terror de Jacques Tourneur, com Simone Simon, e dois filmes japoneses, um do Imamura (‘Desejo Profano’) e outro de Kurosawa (‘Juventude sem Arrependimentos’), sobre o qual não posso falar muito porque desconheço. O outro ciclo rola até domingo no Centro Cultural São Paulo, sucedendo ao que homenageou o centenário de Anna Magnani – um sucesso que pude confirmar porque estive por lá, vendo dois filmes, ‘Teresa Venerdi’ e ‘Nós, as Mulheres’ –, e agora dedicado às musas do musical. Vivo dizendo que não gosto muito de musicais, mas tem alguns que me encantam. Lembram-se de ‘Santiago’, o genial documentário de João Moreira Salles? Nele, João explica a fascinação do mordomo por ‘A Roda da Fortuna’, de Vincente Minnelli, e mostra a cena em que Cyd Charisse e Fred Astaire caminham no Central Park, em Nova York, fazendo uma transição sutil dos passos para a dança. No filme do João, aquilo adquire uma conotação metafórica – veja agora o filme inteiro, que é um dos grandes do pai de Liza Minnelli. Adoro ‘Sete Noivas para Sete Irmãos’, de Stanley Donen, mas me fascinam principalmente as cenas viris, dignas de westerns – a coreografia dos machados, de Michael Kidd, e a destruição da cidadezinha em processo de construção, uma coisa muito energética, digna do cara que fez ‘Cantando na Chuva’. Já perdi hoje, às 16 horas, ‘Escola de Sereias’, de George Sidney – sou fascinado por ‘Amor a Toda Velocidade’, com Elvis Presley e Ann-Margret –, mas se houver outro horário vou tentar ver o musical ‘de piscina’ com Ester Williams, que Daniel Filho homenageou na cena da festa de ‘Se Eu Fosse Você’, na qual Tony Ramos tem seu momento de ‘sereia’. Mesmo sabendo que não é um grande musical, tenho de admitir que considero ‘Can-Can’, de Walter Lang, um filme muito prazeroso de ver. Shirley MacLaine, Frank Sinatra, Louis Jourdan, Maurice Chevalier, Juliet Prowse (vestida de cobra e deslizando pelo tronco de uma árvore com toda sensualidade). Além deste elencão, o filme tem a trilha de Cole Porter – ‘I Love Paris’, ‘Let’s Do It’, ‘Just One of Those Things’ – e a história da janela emperrada, no quarto de Shirley MacLaine na Paris da Belle Époque. Ela diz que vai se casar com o homem que fechar aquela janela, Sinatra passa o filme tentando, mas quem consegue – e numa só tentativa – é Louis Jourdan. Shirley casa-se com ele? Vejam ‘Can-Can’. C’est magnifique (outra canção da trilha notável).