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Luiz Carlos Merten

02 Novembro 2010 | 12h31

Fui ver ontem o documentário sobre Liliana Cavani na Mostra. Talvez já o tenha feito na expectativa de falar alguma coisa sobre a vitória de Dilma Roussef. Em primeiro lugar, tenho de dizer que tive um surto na hora de votar, no domingo. Me deu uma emoção intensa, a sensação de fazer história, participando da eleição da primeira mulher a governar o Brasil. Ali, na solidão da urna, me lembrei de John Ford – meu amigo Dib Carneiro Neto diz que eu consigo filtrar todas as minhas experiências pelo cinema, e é verdade. Carrego comigo a cena de ‘O Homem Que Matou o Facínora’ em que as crianças aprendem o significado da democracia, e do voto. Aquela euforia é de uma beleza que poderia valer sozinha, a cena, a obra inteira de Ford, e olhem que ele fez ‘Depois do Vendaval’ e ‘Rastros de Ódio’, que são melhores ainda. Liliana Cavani não é uma das minhas diretoras preferidas, mas gostei de ver o documentário sobre ela. A filmagem é pobre, uma imagem de vídeo que deixa medíocres as cenas de filmes da autora incluídas na produção. Mas o que Liliana diz é forte, desde quando ela evoca seu começo na RAI e a censura a especiais como o que fez sobre a construção de casas populares na Itália, que produziram verdadeiras cidades-fantasmas, longe de tudo, sem saneamento básico, mas as grandes construtoras com certeza devem ter sido beneficiadas, é o subtexto – já era a tese de Francesco Rosi no poderoso ‘Le Mani sulla Città’. Adorei ver Liliana falar de suas duas versões de São Francisco de Assis, a primeira, com Lou Castel, pondo ênfase no aspecto contestador (da ordem e da Igreja) do personagem, a segunda, com Mickey Rourke, mais voltada à espiritualidade. Eu, que não gosto muito de Rourke, dei o braço torcer. Quando ele mandou o beijo para ela – ‘I love you, sweetheart’ –, achei-o terrivelmente sedutor, mais do que quando fez ‘Nove e Meia Semanas de Amor’ e olhem que seu depoimento deve ter sido gravado durante as filmagens de ‘O Lutador’, porque ele está um bagaço. Liliana é articuladíssima, fala sobre política italiana, sobre o projeto de comunicação do fascismo, destrincha a DC, a Democracia Cristã, como se destrinchasse um peru. Explica sua trilogia tedesca, ‘Porteiro da Noite’, ‘Al Di Lá del Bene e Del Male’, sobre a ligação de Nietzsche e Lou Salome, e ‘Interno Berlinense’. Me encantou a sonoridade do italiano. Me desliguei das legendas em inglês e português para viajar nas suas ‘parole’. Confesso até que me deu vontade de rever seus filmes. Quem sabe Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, não estarás certo ao dizer que, bem acima das críticas de sensacionalismo e quetais, Liliana permanece como uma das grandes figuras do cinema? Na RAI, ela iniciou sua escalada com um documentário, ‘Le Donne nella Resistenza’, As Mulheres na Resistência (ao fascismo). O título se aplica ao passado de Dilma, a guerrilheira, combatente da ditadura. Adorei sua mão estendida, o discurso conciliador. Dilma se parece muito com a Dora, irmã de minha ex-mulher, a Doris. Deve ser por isso que nenhuma tentativa de demonizá-la deu certo comigo.