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Luiz Carlos Merten

14 Novembro 2011 | 14h36

D.H. Lawrence, David Herbert, o profeta da sexualidade. Conta a lenda que, quando jovem, ele foi assistir a uma peça com Sarah Bernhardt e ficou tão perturbado com a sensualidade que ela, aos 64 anos!, liberava no palco que saiu correndo do teatro. Desde então, como autor, convencido da superioridade das mulheres, mas intimidado por elas, Lawrence dedicou-se a investigar, ou a tentar decifrar, o enigma – o sexo das mulheres. Espero não estar dizendo nenhuma bobagem, mas a história da literatura, entre muitas outras divisões, poderia comportar a seguinte – antes e depois de ‘O Amante de Lady Chatterley’. O livro foi condenado por ‘obscenidade’ e, na realidade, só foi liberado bem no final dos anos 1950. Houve duas ou três adaptações de ‘Lady Chatterley’ antes da francesa, de Pascale Ferran, em 2006, que é a melhor de todas. Mas eu tenho dúvidas de que seja o melhor Lawrence do cinema. “Filhos e Amantes’, de Jack Cardiff, foi um dos primeiros filmes ‘proibidos’ a que assisti, ainda menor de idade, por volta de 1960, e até hoje não sei se foi por isso que me marcou tanto ou se foi por aquela fotografia (em preto e branco) de Freddie Francis, tão impressionante que ele ganhou o Oscar. Gosto, e não me perguntem por que, de ‘A Virgem e o Cigano’, de Christopher Miles, de 1970, com Johanna Shimkus e Franco Nero. Aliás, não custa dizer. O clima do filme é convincente, a química de Nero, com seu jeito Django de ser, e a beleza aristocrática de Johanna, que eu adorava, independentemente de ela ser boa atriz ou não (acho hoje que não era). E aí chegamos a ‘Mulheres Apaixonadas’, Women in Love, de Ken Russell, o melhor, the best. Nenhum outro cineasta expressou com tanta intensidade o panteísmo lírico do autor. ‘Mulheres’ é sobre o quê, mesmo? Dois casais. Gudrun e Gerald, Ursula e Rupert. Glenda Jackson, que venceu o Oscar de melhor atriz pelo papel, e Oliver Reed, Jennie Linden e Alan Bates. Os dois primeiros competem intelectualmente. Levam o embate para o sexo. Terminam separados. Os outros são, comparativamente, mais simples, não simplórios. Vivem uma relação mais tranquila (e plena), mas não se pode dizer que se bastem. Pois Rupert precisa de Gerald, da companhia masculina. Nenhum homem será completo na sua virilidade sem o complemento da amizade masculina. Lawrence, na sua fragilidade perante o feminino, tinha de ser muito macho, nem que fosse metaforicamente, para admitir isso sem correr o risco de ser gay. Ken Russell, o enfant terrible do cinema inglês por volta de 1970, extrapola. Gerald e Rupert brigam – jogos lúdicos – nus. Se hoje ainda é raro, imagine há 40 anos exibir a genitália (frontal) dos atores. O sexo, para Russell, como para Lawrence, faz parte da animalidade do homem. A natureza vira um teatro para as ações humanas. Teria de reler o livro, mas revendo o filme me surpreendeu como a ‘mãe’ natureza exighe sacrifícios huimanos, ou pelo menos Russell assim os filmes. Existem três mortes em ‘Mulheres Apaixonadas’, duas por afogamento. Os personagens se exercitam, se medem, se desafiam fisicamente. Dançam, rolam na neve, brigam etc. Tem gente que acha pretensiosa a dança de Gudrun/Glenda Jackson na natureza (uma espécie de ‘Sagração da Primavera’?). Outros não perdoam o diretor pela cena em que Jennie Lindon e Alan Bates correm um para o outro e o diretor revira a imagem para que eles fiquem na horizontal, na imagem. Russell foi mais ‘flambopant’ dos autores. Um barroco, no limite do rococó. Isso talvez crie uma contradição, em termos, com a escrita enxuta de Lawrence, que não era um barroco. Russell já havia feito um ou dois filmes. Parei e fui pesquisar no ‘Dicionário de Cinema’, do nosso bom Jean Tulard. Dois – ‘French Dressing’ e ‘O Cérebro de Um Bilhão de Dólares’, a terceira aventura de Harry Palmer, com Michael Caine como o agente e a irmã de Catherine Deneuve, Françoise Dorléac. “Mulheres’ redirecionou sua carreira, mas tenho a impressão de que foi com ‘Delírio de Amor’, The Music Lovers, sua cinebiografia de Tchaikovski, feita a seguir, que ele encontrou seu ‘tema’, o mundo de sonhos que se esboroa em contato com a dura realidade. Rever ‘Mulheres Apaixonadas’, tanto tempo depois, fortaleceu o que era só uma suspeita. Era um filme adiante de sua época. Como é que François Truffaut dizia (era ele, não)? A idade cai bem nos filmes que o tempo respeita.