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Luiz Carlos Merten

05 Novembro 2009 | 09h12

Tanta gente me falou que gostou de ‘Fish Tank’ que eu me sinto meio que obrigado a postar alguma coisa sobre o filme de Andrea Arnold. Ainda não recebemos, no jornal, a lista dos filmes da repescagem, aqueles que, a partir de amanhã, você ainda terá uma última chance de ver na Mostra. Não sei se ‘Fish Tank’ estará entre eles, mas a simpatia que o filme provocou entre pessoas que me paravam para pedir ‘Escreve sobre ele’ me leva agora a atender ao pedido. A inglesa Andrea Arnold concorria à Caméra d’Or no ano em que integrei o júri de Cannes. Ela participava do maior festival do mundo – na competição – com ‘Red Road’, que terminou vencendo o prêmio do júri. Os Dardennes adoravam o filme de Andrea e em ‘Fish Tank’ ela confirma que tem um lado Ken Loach, na maneira de olhar a classe operária. O próprio Loach mudou o tom este ano, com a bela fantasia de ‘À Procura de Eric’, que estreia amanhã. ‘Fish Tank’ vê o mundo pelo ângulo de uma garota de 15 anos que vive com a mãe, na periferia de Londres. Mia quer viver a vida com intensidade, mas se sente paralisada – pela mãe, pelas colegas. Entra em cena o novo namorado da mãe, um homem mais jovem que ela. Andrea Arnold tem capacidade de observação, trabalha bem com os atores, mas não consegui entrar no filme dela em Cannes (nem tive tempo de revê-lo aqui). De qualquer maneira, é forte (e passa às 18h10 no Arteplex Pompeia). Confesso que, até para minha surpresa, gostei muito mais de ‘O Brilho de Uma Paixão’, de Jane Campion, que também terá hoje sua última exibição (às 17h40, no Cinema da Vila). Não que existam muitas similaridades entre os dois filmes, exceto, talvez, o fato de serem dirigidos por mulheres e alguma coisa da vertigem romãntica que, em ambos, as personagens femininas terminam por construir para elas mesmas. ‘Bright Star’ mostra garota, com bom olho para a moda, que se envolve com o poeta John Keats, na Londres do começo do século 19. Tudo, no começo, os separa, mas eles se aproximam, Keats começa a ensinar poesia à garota e o que ele ensina, basicamente, é que poesia não se lê, se sente. O romantismo os envolve e inspira, mas Keats sofre os problemas de ser um poeta adiante de seu tempo, incompreendido, o que se reflete em dificuldades financeiras, que, somadas à saúde precária, selam seu destino trágico. Achei o filme muito bonito, fotografia de Greig Fraiser, trilha de Mark Bradshaw, e o elenco contribui, porque Abbie Cornish e Ben Whishaw têm a intensidade que os papeis exigem. Há algo de Truffaut nesse romantismo excessivo, na ideia de que mais do que um filme sobre o amor físico (de duas almas ‘elevadas’) é um filme físico sobre o amor de corpos que se deterioram (o dele) e esse é um tema que atrai a autora. Vocês devem se lembrar que Jane Campion fez história como a primeira mulher a vencer a Palma de Ouro em Cannes (por ‘O Piano’, em 1995). Não gosto muito de ‘Em Carne Viva’, que ela fez com Meg Ryan e Mark Ruffalo, mas ‘Fogo Sagrado’ me impressionou (por Kate Winslet) e me lembro que, na época, vi coisas boas em ‘Retrato de Uma Mulher’, com Nicole Kidman, que Jane adaptou de Henry James e foi recebido a pedradas. Um terceiro filme ‘de mulher’ – mas as diretoras, em geral, detestam quando se fala no olhar feminino – pode ser uma opção legal, embora tenha de confessar que não consegui ver ‘Firaaq’, da indiana Nandita Das, que passa às 19h30 no Arteplex 4. Quando olhei o catálogo da Mostra, foi um dos títulos que me atraíram, sobre pessoas que vivem experiências radicais durante 24 horas de violência na Índia. Alguém viu? Confirma se é bom? Apersar de toda a minha vontade, não conseguirei ver ‘Firaaq’. Tenho de ir à premiação (para fazer matéria) e, se der, se não uma loucura – gente demais -, vou tentar ver o ‘Lebanon’, que a Mostra reservou para o encerramento.