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Luiz Carlos Merten

17 Junho 2007 | 13h41

Nada como a série ‘uma coisa leva a outra’. Num blog, ela é fonte inesgotável de assunto. Ontem, quando redigia o post sobre os casais míticos, citei Sternberg e Marlene. Quando redigi o nome dele e grafei Joseph, me bateu que não era com PH e sim, com F. Como já havia salvado, pensei comigo que poderia corrigir depois. Fui à tradicional feijoada de (pré)inverno de minha amiga Leila Reis e, mais para o fim da tarde, passei no Conjunto Nacional para olhar a nova Livraria Cultura. Lá no CN tem uma loja de CDs e DVDs que sempre tem umas ofertas interessantes. Fui conferir. Estava fechada mas, na vitrine, havia, entre muitos outros DVDs em exposição – vejam só! –, o de The Devil Is a Woman, que Josef (com F) von Sternberg fez em 1935. No Brasil, chamou-se Mulher Satânica. Nem sabia que o DVD havia sido lançado aqui. Foi o sétimo e último filme dele com Marlene Dietrich, encerrando a parceria que havia começado na Alemanha, com O Anjo Azul, em 1930. Sete filmes em cinco anos dão a medida de como a dupla trabalhava, e rapidamente, pois Sternberg, além dos sete com Marlene, ainda fez Uma Tragédia Americana, com Sylvia Sidney, que adaptou do romance de Theodore Dreiser, em 1931. Qualquer historiador de cinema vai confirmar que o ciclo de Sternberg com Marlene não foi muito bem recebido na época e que os críticos achavam no mínimo extravagante o uso que o diretor austríaco fazia de sua estrela, que, a esta altura, já virara mito no cinema americano. A partir da Lola-Lola de Der Blaue Engel, o desafio de Sternberg consistiu em oferecer papéis cada vez mais exóticos à sua musa, que levou para Hollywood, onde ela terminou por suplantá-lo. Para Sternberg, Marlene foi dançarina de cabaré, espiã, aristocrata fugitiva, vestiu-se com uma pele de gorila e encarnou uma esplêndida Catarina da Rússia em Marrocos, Desonrada, O Expresso de Shangai, A Vênus Loira e A Imperatriz Galante. Na última parceria, que adaptou livremente de Pierre Louys, A Mulher e o Fantoche, Sternberg fez de Marlene a mulher satânica – uma flamante dançarina de flamenco que enlouquecia os homens e os transformava em meros joguetes de seus caprichos. Filmando em estúdio – era obcecado por controlar as imagens de seus filmes –, Sternberg colocou Marlene no centro de estudados jogos de luzes. Se for aos estudiosos de cinema, você encontrará – estou citando de cabeça – definições como imagens sulfúreas, oníricas, de refinada decadência. Tudo isso e muito mais. Walter Hugo Khouri, que venerava Sternberg acima de todas as coisas – até de Ingmar Bergman, que exerceu grande influência sobre ele nos anos 50 –, sustentava que Sternberg foi um dos raros autores cuja obra é sustentada por uma visão filosófica. Vale a pena ir ao Conjunto Nacional e comprar Mulher Satânica. Vinte e tantos anos depois, Julien Duvivier aproveitou o mito de Brigitte Bardot e fez A Mulher e o Fantoche. Quase 40 anos mais tarde, foi a vez de Luis Buñuel voltar-se para Pierre Louys, mas o mestre surrealista inovou e, em O Obscuro Objeto do Desejo, fez com que a mesma personagem fosse interpretada por duas atrizes, Angela Molina e Carole Bouquet, que dividiam, sem nenhuma lógica, as cenas com Fernando Rey. Não é a menor das curiosidades de Sternberg o fato de que ele gostava de submeter Marlene a verdadeiros cataclismos históricos e/ou sociais. O Expresso de Shangai, no qual ela viaja, atravessa uma China sacudida por ventos revolucionários e o fundo de Mulher Satânica é a guerra na Espanha, no século 19. Sternberg ainda fez muitos filmes (sete ou oito) depois da fase com Marlene, incluindo Anatahan, que nunca vi, uma história da 2ª Guerra, no front do Pacífico, na qual fez construir a selva inteiramente em estúdio. Ele admitia que sua carreira acabara com o último filme que fez com Marlene. Foi o Pigmalião da diva. Ela foi sua Galatéia. Brigaram feio. Sternberg minimizava o papel da própria Marlene e dizia que era o criador absoluto do mito. Marlene reagia irada. Dizia que era gente, não uma marionete nas mãos de seu diretor. Falei outro dia em artistas como seres especiais, entre outras coisas porque muitos atores e diretores conseguem acabar os relacionamentos e continuar trabalhando com suas ex. A regra também vale para mulheres, claro, mas não vale para todo mundo. Não valia para Sternberg e Marlene. Em 1954. ele esteve no Brasil, convidado para participar do festival internacional de cinema com que São Paulo comemorou seu quarto centenário. Khouri foi um de seus cicerones. Na época, já queria ser diretor. A proximidade de Sternberg só fortaleceu nele o desejo de ser, mais do que realizador, um autor.