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Cultura » Muitas dúvidas, nenhuma certeza

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Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2010 | 12h54

Tenho ido bastante ao teatro, mas o difícil tem sido achar tempo para postar alguma coisa sobre tantas peças. Fui ver ‘Maternidades’ no Teatro Imprensa e, mesmo com reservas ao texto e à encenação, o espetáculo tem muito boas observações sobre mulheres e uma atriz que achei maravilhosa. Estava com um grupo e, na saída, fomos cumprimentar Amanda Acosta. amiga de Ando Camargo. Ela cria várias personagens com grande versatilidade e eu disparei que Amanda deveria fazer cinema. É bonita e tem um registro que lhe permite ir da sutileza ao exagero, do humor à tragédia. Se algum cineasta ou produtor de elenco ler o post, sugiro que preste atenção na Amanda. Ela está louca, e no ponto, para filmar. Na sexta, fui ao Teatro Faap ver ‘Inverno da Luz Vermelha’, texto de Adam Rapp com direção de Monique Gardenberg. Vivi o que me pareceu uma situação surreal. Achei que estava sentado num lugar ótimo, na quarta ou quinta fila, na extremidade central. Chegaram Marília Gabriela e seu entourage, o namorado, o filho, amigos e amigas. O teatro parou, mas Marília e seu grupo foram elegantes. Ninguém ficou de ti-ti-ti durante a peça. O problema, para mim, é que o filho, um guri alto, sentou-se à minha frente e tapou minha visão. Passei a duração da peça com torcicolo, me torcendo de um lado para outro para conseguir ver o que se passava no palco. Incrível, mas, com aquele belo espaço cênico criado por Daniela  Thomas, a mise-en-scène de Monique privilegia o centro do palco, o que fez com que a peça (quase) toda tenha se passado, do meu ponto de vista, literalmente, na cabeça do filho de Marília Gabriela! Pois, apesar disso, gostei. Devo a Monique grandes emoções no teatro (‘Os Sete Afluentes do Rio Ota’), em shows (o de Marina, no Auditório Ibirapuera, em que ela abriu o fundo do palco e reproduziu o extraordinário plano final de ‘Gritos e Sussurros’) e no cinema (‘Ó Paí ó’, a deslumbrante corrida da mãe desesperada, clamando pelo filho, dentro da noite). Monique se destaca no panorama do teatro brasileiro atual por não pertencer a coletivos nem ser, radicalmente, uma ‘autora’. Mas ela é encenadora, e talentosa. Ilumina como ninguém e, ao trabalhar a luz, termina por revelar a luz interior de seus personagens. Gostei demais de André Frateschi e Rafael Primot. Finalmente, no domingo, fui assistir a ‘Mente Mentira’, texto de Sam Shepard, com direção de Paulo de Moraes, no Teatro Raul Cortez. Não sei se vou conseguir me fazer entender com clareza, mas gostei pontualmente – as duas atrizes que representam as mães, o ator que faz o irmão mais novo e rouba o espetáculo do astro Malvino Salvador -, experimentado na maior parte do tempo um desagrado que tem a ver com o que, no fundo, me parecem qualidades. É um paradoxo, reconheço, mas vamos lá. Gosto demais das parcerias de Sam Shepard com Wim Wenders (‘Paris Texas’ e ‘Estrela Solitária’), mas o realismo cool de seus textos, levado ao teatro, me aborrece. ‘Fool for Love’, ‘Oeste’, sei que o que vou dizer vai parecer heresia, mas aquela representação do meio Oeste dos EUA, as pequenas vidas, os personagens que reproduzem estereótipos machistas, nada me toca muito no teatro de Sam Shepard. Acho uma boutade divertida, mas a definição de ‘Harold Pinter do Velho Oeste’ me parece uma facilidade meio irresponsável. Agora, vou escangalhar. O melhor de Sam, Shepard é Wim Wenders, e o próprio Shepard é maravilhoso em “Estrela Solitária’. Quando o entrevistei, em Cannes, ele contou como Wenders queria que fizesse o Travis de ‘Paris, Texas’, mas ele não se sentia apto – e não teria feito tão bem quanto Harry Dean Stanton -, mas o caso de Estrela Solitária’ foi diferente e filmar com Jessica Lange foi gratificante. Detestei Zécarlos Machado, mas, neste caso, justamente por ele ter feito tão bem um personagem do qual quero distância e cuja humanidade, no limite, não soube ou não quis perceber. Não recomendaria ‘Mente Mentira’, mas tenho de admitir que não foi perda de tempo assistir à montagem. Muita coisa ficou comigo, muitas dúvidas, nenhuma certeza.