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Moving creatures

Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2012 | 18h27

Confesso que, apesar de minha expectativa, não gostei muito de dois filmes brasileiros que arrebentaram nos festivais de Gramado e Brasília – ‘Colegas’ e ‘Elena’. Em compensação, tive um choque ao assistir ontem, na Mostra, no CineSesc, a ‘O Que se Move’, e achei bem interessante o título internacional do filme de Caetano Gotardo, ‘The Moving Creatures’. Três mães envolvidas em experiências viscerais e que dizem respeito a suas famílias, suas crias. cada uma delas tem um momento dilacerante em que canta, e Cida Moreira, uma das atrizes/cantoras (cantoras/atrizes) matou a charada ao dizer que on filme se resolve na música. As três histórias não se entrelaçam. Temos uma, a outra e depois a outra e no fim de cada uma a mãe (Cida, Andréa Marques e Fernanda Viana) canta o que a aflige. Fernanda foi melhor atriz em Gramado e houve protestos dos críticos porque o filme não tem protagonista e, se era para premiar, o senso comum queria que o prêmio fosse para o trio. Ocorre que entendi perfeitamente o júri – Fernanda é melhor, e cantando ela despedaça o coração da gente. Fernanda também canta em ‘O Meu Pé de Laranja Lima’, no qual faz outra mãe e, se dependesse de mim, teria somado ao Kikito de melhor atriz o Redentor de melhor coadjuvante da Première Brasil de 2012, pelo filme de Marcos Bernstein. Essa preferência não tem nada a ver com o fato de ser amigo de Fernanda, a quem conheço através de seu marido, o ator Rodolfo Vaz (e ambos integram o elenco do Grupo Galpão, de Minas). Lembro-me sempre do que me contou Lygia Fagundes Telles – duvido que alguém vá contestar a ética de Paulo Emílio Salles Gomes e ele fez a crítica elogiosa de um livro dela, argumentando que, independentemente de serem marido e mulher, eram intelectuais. Não é o amigo Merten quem elogia Fernanda Viana, é o crítico. No debate após a projeção de ‘O Que se Move’, Caetano Gotardo disse que chegou a pensar em fazer o filme inteiramente cantado. Não creio que tivesse ficado tão bom – as canções pontuais ficam muito mais fortes -, mas eu, que amo Christophe Honoré, me senti gratificado. Há algo de Honoré em ‘O Que se Move’, e o francês demorou um tempão para fazer só agora, com Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, seu filme de mãe e filha. Gotardo se atracou logo no primeiro com mães e filhos. A reinvenção do musical por ele e por Honoré me enche a alma. Ia escrever que o filme é triste – a palavra assusta o público. Vou substituir por – que filme mais bonito e delicado!