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Mostra1/Começou!

Luiz Carlos Merten

20 Outubro 2016 | 12h55

Embora o post traga o título da Mostra, e seja o primeiro do que espero transformar numa série longa – assunto não vai faltar -, preciso arrematar o assunto ‘Moro’. Rodrigo Lombardi também declinou da honra de interpretar o juiz da Lava-Jato, e não é porque Wagner Moura e ele estejam com o rabo preso. O assunto é muito mais delicado, e eu sustento que o livro de Paulo Moreira Leite lança luzes muito interessantes sobre a dinâmica – o comprometimento? – do que já foi chamado de república de Curitiba. Imagino que o filme de José Padilha e Marcos Prado vá sair, mas estou muito curioso de saber com quem no papel. Marcos vem lançar Curumim na Mostra, no fim de semana. Será o caso de retomar o contacto para falar sobre o assunto. A 40.ª Mostra foi inaugurada ontem, no Auditório Ibirapuera. Ocasião boa para rever amigos – Jefferson De, que está no júri deste ano, compartilha comigo o entusiasmo por Antoine Fuqua. Viu Sete Homens e Um Destino, e amou. Ficou chapado com o clima (gay?) entre o pistoleiro Ethan Hawke e Billy Rocks, o asiático Lee Byung-hun. Estou repensando se tiro alguma coisa para incluir Sete Homens na minha lista de dez mais do ano. A abertura da Mostra foi, em si, um porre. Uma hora de atraso, uma hora de discursos de patrocinadores e apoiadores. Curti só dois, os de Manuel Rangel, o Sr. Ancine, que tem números muito bons para exibir sobre o funcionamento da agência (e sua contribuição para o desenvolvimento do cinema brasileiro) e o da secretária Municipal de Cultura, representando o prefeito que sai. O circuito Spcine injeta 20 salas – 20! – no circuito da Mostra. Cinema em toda a periferia e em pontos centrais (Galeria Oliodo, CCSP etc). Se isso não é importante, não sei o que poderia ser. E, na Mostra, Fernando Haddad é rei. Basta citar o nome dele que o público vem abaixo aplaudindo. Havia visto, numa tela minúscula, quando entrevistamos – Ubiratan Brasil, Luiz Zanin e eu -, Renata de Almeida para o Caderno 2, a vinheta da 40.ª Mostra, criada sobre o desenho do cartaz de Marco Bellocchio. Na tela grande, ficou deslumbrante. Duas ou três coisas, ou quatro/cinco, sobre atrações de hoje. Na retrospectiva De Marco Bellocchio, teremos La Cina È Vicina, A China Está Perto, de 1967. O filme é contemporâneo de A Chinesa, de Jean-Luc Godard, e discute contradições da esquerda revolucionária, da linha Mao, no pré-Maio de 68. Como todo filme de Bellocchio, é sobre família, e conflitos geracionais. Teremos também, nesta quintas, dose dupla nos irmãos Dardenne. Hedi, do tunisiano Mohammed Ben Attia, que eles produziram, e o filme é ótimo, e A Garota Desconhecida, que dirigiram. Gosto bem mais do primeiro. Os Dardenne me dão a impressão de não estar sabendo renovar seu universo político nem sua ‘gramática’, como conversei em Cannes com um daqueles amigos ‘gringos’ que a gente arranja nesses eventos. Há um quarto programa, e outro ‘clássico’ – na retrospectiva de Andrzej Wajda -, que vale resgatar. O próprio Wajda dizia que boa parte de seus problemas com o regime comunista tiveram base no revisionismo histórico de Cinzas, de 1964, não confundir com Cinzas e Diamantes, de 1958. O filme lhe valeu o rótulo de antipatriótico, antipolonês. Quatro indicações estão de bom tamanho, mas ainda tem os 50 anos de Persona. O filme de Bergman passa no Itaú Cultural, que sedia uma exposição de fotos, e será seguido por um debate. Desconstruindo Persona, ou o que que seja. O filme, lançado no brasil com,o Quando Duas Mulheres Pecam, já é uma desconstrução. Bergman e a metalinguagem. Duas mulheres numa casa de praia. A atriz que ficou muda e a enfermeira que a acompanha. Liv Ullman e Bibi Anderson. Incontáveis cenas podem ser vistas como projeções mentais, na vertente de O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais. Sou capaz de jurar que quem escreveu isso, originalmente, foi Ely Azeredo, nos velhos Guias de Filmes no INC. A memória pode me falhar para coisas recentes, mas para as antigas funciona, e muito bem.