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Luiz Carlos Merten

18 Outubro 2009 | 10h41

BELO HORIZONTE – Aqui estou em BH, queria até ter postado antes, avisando, para ver se encontrava meus amigos mineiros do blog. Na verdade, esperava encontrolá-los na Mostra Cine BH, que as irmãs Universo, Raquel e Fernanda, fazem com os festivais de Tiradentes e Ouro Preto. Cheguei ontem pela manhã, saí cedo de São Paulo, e aproveitei para dar uma olhada na cidade. O festival realiza-se em Santa Tereza, bairro tradicional, que estava meio caído, e faz parte de um projeto da Prefeitura, que encomendou à Universo uma programação especial para BH, já que os outros festivais que elas fazem contemplam cidades históricas. Conversando ontem com Raquel no jantar, ela me informou que BH teve mais de 120 salas de cinema, e hoje as que ainda existem, ou resistem, estão todas em shoppings (claro). A principal sala de projeções da Mostra Cine BH é o Cine Santa Tereza, na Praça Duque de Caixas, que passou por uma adaptação, não propriamente restauro, para sediar o evento. A Universo também construiu uma tenda para abrigar outra manifestação da Mostra, o seminário. Ingenuamente, perguntei o que qualquer pessoa sensata perguntaria – a Universo já tem outra tenda em Tiradentes. Raquel me explicou que é a mesma empresa que, terceirizada, constroói as duas tendas, todo ano. Mas não era mais fácil já ter uma tenda para diminuir custos e poder investir em outras coisas? Nâo pode – como entidade promotora de eventos, a Universo não pode criar patrimônio, ter bens próprios. Mas não tem como resolver o impasse? Porque todo ano colocar um piso na praça para erguer a tenda… Em três anos já teria dado para construir um prédio permanente, que poderia ser doado à cidade. Nâo pode. Entendo a preocupação – moralização etc e tal -, mas vejam que, com tudo isso, volta e meia estouram os escândalos, nem tantos quanto gostariam, na área de cultura, os farejadores de matérias de denúncias que, em geral, têm a denúncia pronta para ser feita em casa – tantas empresas jornalísticas usando leis de incentivo para livro, DVD e o escambau -, mas essas passam batidas. Estou numa digressão meio tonta. Acho bem interessantes os festivais da Universo porque são complementares. Cada um possui um perfil específico. O de Tiradentes tem servido à discussão e teorização sobre estéticas, o de Ouro Preto é voltado à discussão do patrimônio e a mostra de BH reflete sobre o cinema em intercâmbio com o mundo, daí as mesas de sexta-feira e ontem, sobre caminhos e critérios das co-produções e o Brasil como cenário de co-produções internacionais. Assisti ontem a ‘Plastic City’, o filme que o chinês Yu Likwai realizou em São Paulo, mais exatamente, no bairro Liberdade. O filme foi recebido a pancadas em Veneza e a versão que vi ontem já é outra, pois o filme foi remontado – já vinha sendo, antes de ir ao Lido, onde foi apresentado como ‘work in progress’. Não posso dizer que gostei, porque ‘Plastic City’ constrói um monte de metáforas e faz dialogar a presença chinesa no Brasil com a violência da periferia e a cultura da mata, tudo meio excessivo, ou compondo uma salada que não destrinchei. Mas tenho de admitir que achei ‘Plastic City’ bem excitante, visualmente. Nem pisquei durante as quase duas horas de projeção e, no final, preciso descobrir porque me vieram o título e as imagens de um velho filme do italiano Sergio Sollima, com Charles Bronson, ‘Città Violenta’, por volta de 1970. Será que foi só o título? Alguma firula visual? Temas que o meu inconsciente gravou, ligando um e outro? Tenho de pensar. Agora vou dar uma volta. Estou num hotel na Afonso Pena e, em frente, há uma feira enorme. À tarde, há um debate sobre a TV como aliada do cinema e, à noite, o ‘Independência’, de Raya Martin, que quero rever antes de retornar, hoje mesmo, para São Paulo.