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Mostra 9/E, no fundo de tudo, Breton!

Luiz Carlos Merten

29 Outubro 2016 | 10h51

Corri o dia inteiro para poder assistir ontem à noite a O Nascimento de Uma Nação, e na sequência ao debate promovido pela Mostra, A Voz do Negro no Cinema. Jeferson De, Thogun, Teka Romualdo, Juliana Vicente e mediação de Adriana Couto. Fiquei até o fim. impactado pelo filme e pela sinceridade das participações dos debatedores. O filme refere-se a eventos que ocorreram nos EUA no século 19, o título evoca o clássico racista de David W. Griffith, de 1915 – há cem anos! -, mas a atualidade é premente, e urgente. A polícia paulista é a que mais mata, mulheres negras são submetidas a todo tipo de abuso e violência. No documentário que dá voz às mulheres vítimas de abuso, que vi em Brasília, a garota conta como, sentindo-se humilhada no bar, foi recorrer ao policial e nem foi adiante porque percebeu no olhar dele a galhofa. Negro, seja trabalhador ou não, é suspeito só por existir e, por isso mesmo, a classe média prefere envolver a questão da negritude no manto da invisibilidade. É a frase no cartaz do documentário Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, baseado no livro dela – ‘A sociedade não vê aquilo que lhe desagrada’, ou coisa que o valha. Fiquei muito impressionado com o filme de Nate Parker. Por coincidência, antes de entrar na sala (Cinearte 1), passei pela banca da Paulista, em frente ao Conjunto Nacional, e comprei a revista Cineaste. A edição de ‘Fall’ 2016. America’s leading magazine on the art and politcs of cinema. Na capa, a chamada é sobre Jacques Rivette, The Cinema’s Late, Great Manipulator, mas a foto é de Nate e, na portada, está o título The Birth of a Nation. A concorrência deu uma capa sobre a acusação de estupro da qual o diretor foi absolvido. Pelo que me contaram, o texto atribui a isso o insucesso do filme na bilheteria. Duvido muito. Não é o tipo de filme que a massa queira ver, ainda mais num ano de eleição polarizada como está sendo nos EUA. O debate político reverbera na tela. Justamente o estupro. Nas chamadas que fiz para o filme – no online, no impresso -, falei na rebelião dos escravos que matavam, pilhavam. É uma influência do romance de William Styron, As Confissões de Nat Turner, que li há quase 50 anos, logo que saiu no Brasil (nos EUA, a primeira edição é de 1967), mas também, e talvez principalmente, do Robert Aldrich de A Vingança de Ulzana, quando Kenitay explica ao batedor Burt Lancaster porque os índios estão cometendo atrocidades. Para devorar o medo do inimigo e absorver sua força. O livro tem um aspecto bem polêmico, além de haver surgido numa época em que ardiam os guetos negros, na luta por direitos. Styron reconhece Nat Turner como letrado, mas no livro, inspirado nas confissões reais, quando ele ficou preso, o pregador é solteiro. Na ficção de Styron, Nat é dado a fantasias sexuais e, quando mata uma mulher, é para dar vazão ao desejo reprimido do escravo negro pela mulher branca. O filme de Nate Parker não vai por aí. Ele é casado, ama a mulher, a filha, mas a sociedade dos brancos usa sua habilidade como pregador para manter os escravos sob controle. Ao ler corretamente a Bíblia, Nat descobre sua ambivalência. Para cada fala que impõe ao servo a submissão ao mestre há outra que incentiva sua revolta. Quando ela explode, vem o banho de sangue. Não sabia muita coisa – nada? – sobre o filme, mas encontrei, no texto de Cineaste, trecho de uma entrevista de Nate no Sundance, onde Birth of a Nation ganhou prêmios importantes – o do público e o especial do júri. Ele conta que fez o filme para desafiar o público. “Queria que o espectador se sentisse afetado por ele, que ficasse refém no cinema olhando aquelas imagens até se dar conta de que tudo isso continua ecoando em 2016.” Não sei se, para o público brasileiro, para os críticos que somos, a principal objeção (a única?) de Cineaste a Nate Parker é tão relevante assim. Quando a câmera passeia pelos corpos dos rebeldes enforcados, Nate usa na trilha a versão de Strange Fruit por Nina Simone. Cineaste questiona o anacronismo, porque a música existe no inconsciente coletivo dos EUA ligada às questões dos anos 1930, quando foi composta por Abel Meeropol e gravada pela primeira vez por Billie Holiday. Para uma cena de linchamento, Strange Fruit parece ‘estranhamente’ errada, diz o crítico da revista. Ainda tenho de assimilar isso. O importante é que, na troca final de olhar de Nat com o garoto e, depois, quando o jovem, feito homem, vira soldado da União na Guerra Civil, a semente plantada pelo escravo rebelde frutifica. Nasce ali uma outra nação que não a de Griffith. Como no caso de Redemoinho, de José Luiz Villamarim, só tive minha catarse, e consegui chorar, muito depois. Esse Nate Parker é f… O filme dele, o de Tom Ford, o Pitanga, o próprio Redemoinho. Pegando carona em André Breton, a beleza (do cinema) será convulsiva, ou não (será).