As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mostra (9)/Bêbados, sem equilibrista nem Henfil

Luiz Carlos Merten

29 Outubro 2017 | 01h12

Assisti agora à noite a Henfil, de Ângela Zoé. Gostei demais. Zoé fez um retrato muito criativo do cartunista. Um grupo vai estudar a obra dele, colhem depoimentos de especialistas e de colegas no Pasquim, discutem a animação de seus personagens emblemáticos. Fradinhos, Graúna, Zeferino, Ubaldo paranóico, o bode. A metalinguagem atualiza o foco e Henfil, de qualquer maneira, está mais vivo que nunca. Os irmãos e ele foram assassinados pelo Brasil, que não tinha, em tempos de aids, uma política de controle e fiscalização dos bancos de sangue. Chorei pra burro. Com todo o horror da ditadura, eram tempos de resistência, de união. Hoje, mesmo quando resistimos, estamos à deriva. Os Henfi(l)s que nos sacudiam estão substituídos por cronistas que dizem as banalidades que as pessoas querem ouvir, como se fossem verdades absolutas, uma coisa meio autoajuda. É de cortar os pulsos. Henfil morreu em janeiro de 1988 – há quase 30 anos. Espero que Ângela consiga lançar seu filme em dezembro, como espera, para que possamos resgatar essa figura extraordinária. Henfil estaria deitando e rolando contra o politicamente correto e, pior, contra esses obscuros tempos de Censura que estamos vivendo. Já estamos no domingo. Fernanda Torres postou ontem no Face ou em alguma outra rede que Fernanda Montenegro e ela receberam ameaças de morte por terem se manifestado a favor da exposição do Masp. Fernanda mãe foi chamada de velha puta e gagá e o xiita celerado ainda disse que, se estivesse na direção do carro e ela fosse atravessar a rua, ele acelerava. O Face, admirável mundo novo!, não viu ameaça nenhuma na afirmação. Disse que não fere o protocolo da empresa… Vi ontem pela manhã o filme espanhol sobre o banana do selfie e, depois, andando pelo shopping (Frei Caneca), chamou-me a atenção um anúncio – mídia digital para espaços de consumo. É só o que importa. O consumo. Liberdade é uma calça azul e desbotada, mas de preferência você deve comprar delavé, pagando mais caro. No filme da Ângela tem um cartum genial do Henfil. Nos anos 1980 ele já se perguntava se haveria esperança. Graúna, Zeferino e o bode Orelana. Graúna, montada nos dois, vê a tal esperança. Não vou dizer qual é porque não me lembrava da charge e gostaria que vocês tivessem a mesma emoção, o mesmo impacto que tive. Basicamente, a esperança está em nós, mas temos de fazer alguma coisa. A geração de Henfil bateu-se pelas Diretas-já, contra a qual foi, sempre é bom lembrar, o relator da segunda denúncia contra o Michel. ‘Caía/a tarde feito um viaduto/e um bêbado trajando luto…’ Estamos de volta aos tempos do bêbado e da equilibrista. E, agora, sem Henfil.