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Mostra 8/Dib Lutfi!

Luiz Carlos Merten

28 Outubro 2016 | 08h47

Assisti ontem pela manhã, numa cabine da Mostra, ao filme produzido por Bahman Ghobadi. Life on the Border. Crianças curdas num acampamento de refugiado contam suas histórias. E a gente às vezes acha que o mundo vai cair porque pisaram em nossos calos… As crianças contam suas histórias, assistidas por cineastas que lhes forneceram os meios, e as ferramentas, para isso. A primeira história, um casal de irmãos. Não vou dizer o que é, mas o desfecho é uma das coisas mais bonitas que já vi na vida, um momento absolutamente mágico, sem precisar de nenhum efeito. Quando entramos na sessão, meu editor, Ubiratan Brasil, me informara da morte de Dib Lutfi. No final, voltamos para a redação do Estado, sem esperar o filme seguinte, que seria do próprio Ghobadi. Tinha a capa de hoje do Caderno, sobre Júlio Andrade e seus filmes na Mostra – Maresia, de Marcos Guttman, e o maravilhoso Redemoinho, de José Luiz Villamarim, que passa hoje. Enterrei o Dib Lutfi no online, fiz os textos do Júlio, outro texto sobre o Dib para o impresso. Havia perdido A Grande Cidade, quando o longa de Cacá Diegues passou no Festival do Rio. Havia me programado para ver ontem, na Mostra – houve uma sessão na Sala Cinemateca -, mas não deu. No ano passado, lembro-me que consegui ‘recuperar’ Esse Mundo É Meu, quando o filme de Sérgio Ricardo, de 1963, fotografado por Dib Lutfi, passou na Mostra. No texto do portal, ressaltei a coincidência, já que ainda dava tempo. Fernando Duarte tem o crédito da direção de fotografia de A Grande Cidade, mas Dib Lutfi operava a câmera. A sessão, e sem que ninguém pudesse prever isso, virou uma homenagem. As cenas de Antônio Pitanga na rua, de Annecy Rocha na feira – Luzia, que vem do Nordeste atrás de seu amado Jasão, Leonardo Villar, agora um bandido caçado pela polícia. Câmera na mão, a mão poderosa de Dib Lutfi, mas o segredo eram as pernas, que seguravam o tronco. Teci uma história – uma metáfora? O homem com a câmera de Dziga Vertov convertido em homem-câmera. Dib Lutfi! Citava os filmes nos textos e me vinham as imagens. Terra em Transe! De novo ele operava a câmera, mas o crédito da fotografia é de Luiz Carlos Barreto. A foto do jornal é do set de Terra em Transe. Dib, com a câmera na mão (sempre!), Glauber a seu lado e, de costas, Glauce Rocha e Jardel Filho. Fantasiei que era a cena que José Eduardo Belmonte comenta nas vinhetas criadas pela Globo Filmes para sua magnífica série apresentada no Festival do Rio. Há oito anos Dib Lutfi sofria de Alzheimer. Estava num estágio avançado da doença. Oito anos! Lembrei-me de meu amigo Tuio Becker. De Annie Girardot. E das crianças curdas. A vida não é fácil. Ainda bem que temos o cinema. Vou ser bem melodramático. Gostaria que houvesse um céu. Dib Lutfi ia reencontrar Glauber, ou encontrar Babenco. E brincariam todos de fazer filmes por toda a eternidade, nos campos do Senhor.