As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mostra 7/Pirei com o Tom Ford

Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2016 | 10h09

Sempre gostei muito de Laura Linney, e cheguei a entrevistá-la – por O Exorcismo de Emily Rose, sobre o quasl falei no post anterior, vejam como são as coisas. Laura excede num tipo de mulher madura, sofredora sem ser amarga, em filmes como Sobre Meninos e Lobos e Kinsey – Vamos Falar de Sexo. E é certamente a menos glamourosa das estrelas de Hollywood. Gostar é uma coisa, mas desta vez Laura Linney entrou para o meu panteão. Seus – quantos são? – cinco minutos, talvez menos, em Animais Noturnos, como a mãe de Amy Adams, são absolutamente perfeitos, um desses momentos raros que, para mim, fazem parte do mistério do cinema. Annie Girardot em Rocco e Seus Irmãos, Vivien Leigh em Uma Rua Chamada Pecado, Jeanne Moreau em Uma Mulher para Dois (ou Jules e Jim), Glauce Rocha em Terra em Transe e agora Laura Linney. Animais Noturnos. Amy Adams encontra-se com a mãe, milionária texana que representa tudo o que ela mais odeia. A mãe diz que conhece a filha mais que ela mesma. Sua frase definitiva – ‘Todas as filhas terminam por se parecer com suas mães.’ Tom Ford! Havia gostado muito de Direito de Amar, e até hoje não me conformo que a Academia, ao invés de premiar Colin Firth por aquele filme, tenha preferido lhe dar o Oscar por O Discurso do Rei. Bloody Academy! Maldita Academia. Não sei nem se serão indicados(as), mas, por mim, já daria o Oscar de 2017 para Amy Adams (atriz), Jake Gyllenhaal (ator) e Laura Linney (coadjuvante), por Animais Noturnos, que vi ontem na Mostra. Nem precisava Oscar no ano que vem. Vamos passar adiante porque não tem nem graça. Mas, enfim,, será preciso cumprir a formalidade. E com certeza haverá um novo Eddie Redmayne, alguma Meryl Streep (não?) e talvez um Tom Hanks (Sully, de Clint Eastwood). Tom Ford, o estilista, o cineasta, o estilista de novo. Animais Noturnos abre-se com uma performance que pode até parecer grotesca, mas é perfeita como representação de uma sociedade que pratica um hedonismo frívolo e vive em função da exterioridade. Na sociedade da imagem, a beleza física há muito substituiu a interior. E o que é isso – a beleza interior? Madre Teresa? Nãããoooo. Adriane Galisteu nem fala. Saltita como ‘o desejo’ na abominável Tróilo e Créssida. Ó céus! Amy Adams nunca foi mais bem vestida, pintada, adornada. Os diálogos são geniais. A ‘amiga’ socialite lhe fala da vantagem de ter um marido gay, e Michael Sheen é quem faz o papel, como o máximo de sua afetação. O mundo do dinheiro está falido – vive de aparência. A ironia do autor – o marido falido é interpretado por Armie Hammer, ator que pertence a uma família de bilionários. Se quisessem, poderiam comprar Hollywood. E entram os animais noturnos, três caras belos como anjos caídos e que, saídos da literatura – Jake Gyllenhaal é escritor -, atacam a sacrossanta família. O anjo do mal, Aaron Taylor-Johnson, caga! Literalmente. Revenge, vingança, como no quadro na parede da galeria de Amy. Mas de qual Jake é a vingança? De qual marido? O do romance ou da ‘realidade’? Pirei com o Tom Ford. Ninguém é mais crítico, duro, incisivo que ele. E o cara representa Tom Ford como ninguém. Vi-o numa entrevista na TV americana. Estava zapeando e entrou aquela cara conhecida. A apresentadora comentou o vestido que Michelle Obama usara em algum compromisso do dia, ou recente. Perguntou a Tom se não gostaria de vestir a primeiras dama dos EUA. Ele respondeu que adoraria, mas, infelizmente, Michelle não teria dinheiro para pagar por seus modelitos. Subentendido estava – de graça é que não vou fazer. Animais Noturnos terá mais algumas exibições na Mostra. Estreará em 17 de novembro. Vou ter de remanejar minha lista de dez mais do ano para acomodar o Tom Ford.