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Mostra 6/O ‘príncipe’ Bellocchio

Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2016 | 00h47

Tenho de agradecer à Mostra. Luiz Zanin Oricchio, que fez a mediação do debate com Marco Bellocchio neste domingo, 23, entrevistou-o para o Caderno 2. Mas eu queria muito falar com o maior diretor italiano contemporâneo, título que lhe atribuo sem pestanejar. A Mostra – Margarida Oliveira – permitiu-me esse encontro. Livre da incumbência de fazer a entrevista, troquei idéias. Conversei. Para mim, foi ótimo. Meu ponto de partida foi um Bellocchio que me intriga há mais de 20 anos, O Príncipe de Homburgo, que vi em Cannes, 1995. Uma adaptação de Heinrich von Kleist. Bellocchio me contou que viu uma montagem e depois leu a peça. Apaixonou-se. O texto permaneceu inédito enquanto Kleist era vivo. Foi montado somente após sua morte. Na peça, o príncipe de Homburgo é um militar que sonha acordado. Seduzido pela sobrinha do Grande Eleitor, seu senhor, ele desobedece à estratégia traçada para uma batalha. Vence, mas o Eleitor, que não tolera indisciplina, o submete a corte marcial. O príncipe é condenado à morte. tem um colapso e clama por clemência, o que é visto como covardia e perturba o eleitor. O curioso é que, quando Bellocchio me falava desse universo de sonho e vigília, desse intenso sofrimento interior, parecia estar falando do herói contemporâneo de Fai Bei Sogni, ou Belos Sonhos, seu novo longa, que abriu a Mostra deste ano. Ele concordou com minha observação, mas fez a ressalva de que há uma diferença entre um piccolo borghese como o de Belos Sonhos e um homem confrontado com a História, como o príncipe. Falamos do seu interesse por política. A real interessou-o por um breve período, nos anos 1960. Era um idealista, decepcionou-se com a prática política, mas nunca deixou de fazer politicamente os filmes, refletindo sobre a Itália e o mundo. Nos 80, dedicou-se ao que chama de sua ‘ricerca psicoanalítica’. Admite que, sem psicanálise, talvez não houvessem tantas mães em seu cinema, desde a viúva cega, mãe de filhos epiléticos do operístico De Punhos Cerrados, seu longa de estreia, de 1965, que terá sessão nesta segunda, 24, até O Sorriso de Minha Mãe, Vincere e Fai Bei Sogni. A mãe deste último é uma idealização, um sonho de mãe, a que ele não teve, confessa. Na semana passada entrevistei, por telefone, Roberto Faenza, cujo novo filme, La Verità stá in Cielo, integra a seleção do 12.º Festival de Cinema Italiano, em novembro. Conversando com Faenza, falei-lhe do meu amor por Rocco e Seus Irmãos, que ele considera um dos melhores filmes de todos os tempos, mas lamentou que Luchino Visconti esteja ‘dimenticato’ (esquecido) na Itália atual. Disse que há um culto as Federico Fellini e a Pier-Paolo Pasolini, mas o comunismo de Visconti, o comunismo em geral, é algo que os italianos preferem esquecer. Nesse mundo de direita, os italianos convivem melhor com sua herança fascista – bravo, Berlusconi – que com a comunista, lamentou. Retomei o assunto com Bellocchio. Ele não tem muito apreço por Rocco. Acha a estrutura romanesca do filme ‘un può datata’. Prefere Obsessão, La Terra Trema e Sedução da Carne/Senso, que considera perfeito’. Rocco já lhe parece decadente e ele absolutamente não concorda com Palmiro Togliatti, lendário dirigente comunista, que considerava O Leopardo o maior dos filmes e o que melhor explica o funcionamento da classe dominante. Para Bellocchio, o ‘conde rosso’ virou uma incongruência italiana. “É mais fácil deixar-se levar pela imaginação delirante de um Fellini”, reflete, o que me pareceu uma afirmação ambígua, própria de um não felliniano de carteirinha. Bellocchio conheceu Glauber, Conviveu com ele na fase anterior a De Punhos Cerrados. Achava-o vulcânico. Depois, anos mais tarde, reencontrou-o em Roma e Paris, mas era outro Glauber. Afflitto, angustiado. Nem seu cinema e muito menos o mundo estavam de acordo com suas expectativas. Nós que amávamos a revolução e fomos traídos por ela. Ou, quem sabe, a traímos? O encontro com Bellocchio ficará como um dos meus grandes momentos desta Mostra.