As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mostra 5/E o primeiro Wajda nunca esqueci

Luiz Carlos Merten

23 Outubro 2016 | 12h49

Devia ter 15 ou 16 anos quando houve em Porto Alegre, no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, uma série de mostras de cinema. Se não me falha a memória, a primeira foi de cinema soviético, seguida por outra dedicada ao expressionismo alemão e uma terceira de cinema polonês. Descobri tudo junto – Eisenstein, Pudovkin e Dovjenko, o caligarismo e a kammerspiel, Wajda e Polanski. As teorias de montagem expressas em O Encouraçado Potemkin e Mãe me impressionaram, mas, jovem, romântico e idealista, tomei-me de amores por Terra/Zemlya, que permanece, para mim, mais de 50 anos depois, o mais belo poema revolucionário do cinema. Nosferatu e A Última Gargalhada foram verdadeiras descobertas, mas M, o Vampiro de Dusseldorf me bateu como um choque. O desespero de Peter Lorre – seu grito de ajuda, tão dilacerado – até hoje ecoa no meu imaginário. Amo F.W. Murnau – Aurora -, mas o ‘meu’ expressionismo é langiano. Fritz, o grande. Andava com a cabeça a mil e aí vieram os primeiros filmes de Wajda. A igreja em ruínas de Cinzas e Diamantes, a imagem da cruz invertida, com o Cristo de cabeça para baixo, o som. Um mundo em crise de valores. Maciek, Zbigniew Cybulski, ligado aos nacionalistas, recebe a missão de matar um líder comunista. No último dia da 2.ª Grande Guerra, os aliados de ontem já estão guerreando entre si. E Cybulski, o chamado James Dean polonês, que morreu tão novo, com aqueles óculos escuros. Emblemático como o Jean-Paul Belmondo de Acossado, de Jean-Luc Godard. Vi muitos outros grandes filmes de Wajda, depois. Cinzas, Terra Prometida, O Homem de Mármore, Sem Anestesia, O Maestro. Nenhum me produziu o efeito de Cinzas e Diamantes. Meu primeiro Wajda. Só depois vi Kanal. Cinzas e Diamantes terá sessão hoje à tarde, daqui a pouco, na Mostra, na Reserva Cultural. Não incluí o filme no post anterior, com os destaques do dia, porque já pensava num post em separado. Aquela igreja, aquela cruz, aquele som ajudaram, aquele (anti)herói a moldar o cinéfilo em que me converti.