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Mostra (5)/Andrea, na contramão do avô, Vittorio De Sica

Luiz Carlos Merten

27 Outubro 2017 | 01h07

Já passou da meia-noite. Portanto, tecnicamente, é sexta-feira. Meu último post data da quarta. Tanta coisa ocorreu depois. Vi ontem, quinta, dois filmes que me fizeram muito mal. Só gostei – mesmo – de um. Tem a ver com os gêneros. Não digo gêneros de cinema, mas os humanos. Embora realizado por um homem, Diego Lerman, Uma Espécie de Família é feminino, sobre o desejo de uma mulher de ser mãe e as consequências disso, que atingem o ex e a mulher cujo filho ela quer adotar. Uma Espécie de Família me lembrou Aos Teus Olhos – como se termina um filme desses? Não digo que não seja bom, mas confesso que não gostei – muito, pelo menos. A assessoria me persegue, mas tenho fugido. O diretor está aqui. Não sei se quero entrevistá-lo. Preciso de um pouco de distanciamento. Sobre o outro filme… Tenho de dizer que até agora não sei exatamente os filmes que compõem a programação. Tomei um choque ao descobrir que hoje era a última sessão de As Crianças da Noite. O título já é uma aberração. I Figli della Notte não quer dizer exatamente a mesma coisa. Os Filhos da Noite. Andrea de Sica filma um internato para rapazes. Um filme masculino, em contraponto a Uma Espécie de Família. A escola, para a elite, forma a classe dirigente de amanhã. O protagonista é um cara fraco. Une-se ao rebelde da escola, que parece forte. No final, há uma inversão. Nosso garoto fraco revela-se um forte – um perfeito fdp, um dirigente do amanhã, com direito a assassinato e tudo. Andrea é nipote, neto, de Vittorio de Sica. Dedica o filme a seu pai músico, Manuel, que morreu em 2014. I Figli della Notte é um modelo de concisão. Dura exatos 85 min. Não deve ser mera coincidência que Andrea tenha se posicionado na contramão do avô. Vittorio veio do cinema dos telefones brancos. Como diz Jean Tulard, no Dicionário de CInema, ninguém prestou atenção em seus primeiros filmes, mas com I Bambini Ci Guardano/A Culpa É dos Pais, de 1942, Vittorio De Sica anunciou o neo-realismo. Uma mãe abandona o marido e os filhos, marcando para sempre o mais velho, Pricò. Em 1946, foi Vítimas da Tormenta, Siuscià, sobre os pequenos engraxates. Em Crianças da Noite, o pai morreu e a mãe, que herdou despreparada a empresa da família, não tem tempo para o filho, a quem coloca nessa escola – para ensinar a mandar? Andrea de Sica precisa de menos de uma hora e meia para dar conta de como se constrói um monstro, um canalha, que ocorre ser, e não é coincidência, um capitalista. Foi a última exibição do filme na Mostra. Não dá nem para recomendar, mas esses italianos estão me saindo bons. Gostei dos Taviani, e pela primeira vez (acho) o crédito de direção é só de Paolo – Vittorio e ele coassinam o roteiro -, Uma Questão Pessoal. Esse filme merece um post especial. Terá sessões no sábado, na segunda e na quarta. Prometo voltar ao assunto, mas recomendo – programem-se!