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Mostra 10/E O Ídolo me desidratou…

Luiz Carlos Merten

30 Outubro 2016 | 10h37

Havia espectadores reclamando no final da sessão de ontem de O Ídolo no Cinearte 1, mas era a boa reclamação. Só posso dar cinco, perguntava um? Queria dar dez. O novo longa do palestino Hany Abu Assad baseia-se – ‘mostly’ – numa história real. A história de um garoto que cresce com o sonho de mudar o mundo com sua voz. Mas em Gaza, no território ocupado…? A história tem uma morte no meio do caminho e, nesse sentido, tem algo de Dois filhos de Francisco. O canto, a voz como expressões de um povo. Contra tudo e todos. Eu amo Hany Abu Assad desde Paradise Now, que formava o contraponto perfeito a Munique, de Steven Spielberg. Dois grandes filmes, as duas faces da mesma moeda – terrorismo. Veio depois Omar, com muita ação. E agora O Ídolo. Puting melos into drama. Um velho melodrama hollywoodiano, revisto e atualizado. O herói faz de tudo para concorrer no Arab Idol. Encontra radicais, mas também gente generosa pelo caminho. O universo conspira a seu favor. E o filme ainda tem a beleza de Nadine Labaki. Afrodite sem crédito! Não tenho o menor pudor nem vergonha de dizer que chorei de soluçar, de desidratar. E, no final, a militância do autor. Para passar a fronteira, o jovem diz ao guarda que vai participar de um concurso de recitação do Corão. Canta os versos do livro sagrado. Sua voz vira a de seu povo, que ele leva a toda parte. Mas a cada vez, informa o letreiro, precisa de autorização porque, sendo palestino, e refugiado num território ocupado, não tem outro passaporte que não o que a ONU lhe forneceu (e que vale para o mundo, mas não em Gaza). Hany Abu Assad escolheu falar para a massa, mas não desistiu do engajamento. Muito se discutiu isso no debate sobre a voz do negro no cinema, após a exibição de O Nascimento de Uma Nação. O debate foi realizado predominantemente para uma plateia de brancos de classe média. Os assuntos abordados – violência, invisibilidade social – mereciam o acréscimo de uma outra plateia, a dos jovens do Circuito Spcine – onde O Idolo passou (em todos os CEUs). O filme de Hany Abu Assad terá mais uma sessão na segunda, 31, à noite, 21h30, de novo no Cinearte, substituindo sei lá que filme de Marco Bellocchio. Na mesma hora, estaremos, nós, os jornalistas, votando o prêmio da crítica na Mostra. Não creio que O Ídolo tenha condições de ganhar o prêmio da crítica, mas o do público, sim. E eu ficaria muito feliz, se isso ocorresse.