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Luiz Carlos Merten

29 Março 2009 | 14h13

Estou de volta a São Paulo, depois do Rio (quinta e sexta) e Santos (no sábado). Fui ontem para Santos depois de assistir a ‘Moscou’. O novo documentário do mestre Eduardo Coutinho passa depois de amanhã no É Tudo Verdade. É bom, mas não tão bom quanto ‘Jogo de Cena’. Prossegue na mesma pesquisa sobre os limites entre realidade e ficção, mas creio que seria equivocado chamar o filme de ‘Jogo de Cena 2’, como alguns coleguinhas já estão fazendo (pelo menos em privado). Coutinho investiga agora o processo criativo, filmando o grupo Galpão, de Belo Horizonte, que ensaia ‘Três Irmãs’, de Chekhov, sob a direção de Enrique Diaz. O filme tem momentos deslumbrantes, que se referem justamente às pesquisas dos atores. Enrique pede a seu elenco que fale rapidamente, sem pensar muito, sobre alguma coisa que preocupa cada um deles naquele momento. Um fala do seu desejo de plantar árvores, outro da dor que representa a descoberta, por meio de DNA, de que o filho que criou por 20 anos não é de sangue. Chorei em vários momentos, tenho de admitir (qual é a novidade?). Fiquei chapado por Fernanda Viana, mulher de Rodolfo Vaz – também do elenco do Galpão. Fernanda e Eduardo Moreira têm uma cena linda, quando conversam/ensaiam naquela passarela que fica acima do palco. Ambos fizeram ‘Romeu e Julieta’, com direção de Gabriel Villela, e Coutinho, conscientemente ou não, não deixa de homenagear a montagem, que é mítica para muita gente, evocando a dupla na cena do balcão. (A propósito, só para constar, os dois LLs do Gabriel ficam no ‘le’ e não no ‘la’ final, como volta e meia escrevo). Fui a Santos, no fim de semana, acompanhando meu amigo Dib Carneiro, que foi assistir a ‘Calígula’, que ele traduziu (da peça de Albert Camus), no Teatro Coliseu (que não conhecia). Já havia gostado da peça e, se é possível, gostei mais ainda. Duas coisas. Meu amigo Celdani vive dizendo aqui no blog que não existem coincidências e também reclama quando falo no absurdo da existência. Celdani é espírita e acredita num plano cósmico regendo todas as coisas. Às vezes me pego pensando que ele deve ter razão. Na sexta, visitei o ensaio de ‘Vestido de Noiva’, a nova montagem de Gabriel Villela, que estréia em maio, com Leandra Leal na pele de Alaíde. Não havia me dado conta, mas ontem, assistindo a ‘Moscou’, percebi que o ensaio do Gabriel me preparou para o processo criativo de Enrique Diaz no filme do Coutinho. Em Santos, antes e depois do espetáculo, tive acesso – privilégio! – ao palco do Coliseu. Caminhando naquela coxia, pude tocar mais uma vez a lua negra cujo mistério é o da peça (e da montagem). Gabriel é grande diretor de atores. Seu trabalho com Tiago Lacerda é coisa de louco. Jantei depois com o grupo e o Gabriel, que vive flertando com o cinema e querendo dirigir um filme, revelou que adoraria fazer ‘Grande Sertão: Veredas’, com Tiago. Preciso acrescentar que ontem eu percebi – e me rendi – à majestade de Magali Biff. Que atriz poderosa! Cláudio Fontana entrou no papel de Pascoal da Conceição, impossibilitado de estar em Santos. A forma como ele pronuncia as palavras! Um diretor de teatro se mede – acho, posso estar dizendo bobagem – pela forma como seus atores projetam a voz e dizem o texto. Quando vejo montagens com atores de microfone na lapela tenho vontade de dar meia-volta volver e ir embora. Não é teatro, sorry, e olhem que existem ‘nomões’ que fazem isso.