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‘Morte em Veneza’

Luiz Carlos Merten

09 Dezembro 2009 | 18h34

Gaia Servadio, biógrafa de Luchino Visconti, observa, como um dos signos da contradição do grande cineasta, que ele adotou o realismo quando a decadência estava na ordem do dia e aderiu à decadência quando o realismo entrou na moda. Visconti e decadência têm tudo a ver. Falando de ‘Vagas Estrelas da Ursa’, uma de suas obras-primas – que saiu recentemente em DVD –, o mestre disse que não se podia falar em mise-en-scène, mas em mise-à-mort. O filme seria ou é, sobre personagens que carregam impulsos destrutivos, numa cidade (Volterra) condenada à destruição, pela própria erosão do tempo. Mas o filme não é uma afirmação da morte – Claudia Cardinale, como Sandra, carrega os signos da vida, que a fazem superar o ciclo da destruição. Estava quase perdendo a chance. O Cineclube HSBC Belas Artes iniciou uma coletânea intitulada ‘Aconteceu nas Férias’, com filmes ambientados em paisagens que lembram verão. O verão é fétido, há uma peste, a decadência está no ar, mas como se trata de ‘Morte em Veneza’, vamos lá. O filme de 1972 passa hoje e amanhã às 19 horas. Não sei se continua na semana que vem. “Morte em Veneza’ concorria em Cannes naquele ano. Joseph Losey levou a Palma de Ouro por ‘O Mensageiro’, Visconti ganhou o prêmio do 25º aniversário do evento. Ambos se detestavam. Losey e Visconti queriam adaptar ‘Em Busca do Tempo Perdido’. Ambos os filmes, ‘O Mensageiro’ (com o acréscimo de ‘do Amor’ no Brasil) e ‘Morte Em Veneza’, são filmes proustianos na medida em que reencontram um tempo e mostram, como se ainda fosse preciso, que osa dois cineastas tinham condições de encarar o desafio de Proust. ‘Morte em Veneza’ baseia-se em Thomas Mann. No livro, o personagem, Aschenbach, é escritor. Visconti transformou-o em músico, um pouco baseado na evidência de que Mahler teria sido o modelo de Thomas Mann, mas também, e principalmente, porque pretendia costurar seu filme por meio de tomadas lentas e pela música de Mahler. Aschenbach é esse velho compositor, em crise na arte e na vida, que viaja para Veneza. Lá, conhece o jovem Tadzio, que passa a representar para ele um ideal de beleza. Tadzio é inatingível, ou é letal? Talvez seja ambos? Perseguindo o garoto, Aschenbach se decompõe sob o sol e a peste de Veneza. Morre na praia, a máscara da pintura derretendo-se em seu rosto. Amo Visconti, vocês sabem, mas este não é um de seus filmes que prefiro. Acho belíssimo, com momentos que tocam a perfeição – e nunca ouve trilha que casasse tão bem com a imagem –, mas me incomoda a autocomiseração do desfecho. Não sinto a atração do compositor pelo garoto como algo puramente estético. Visconti era homossexual assumido, estava envelhecendo (66 anos) e ninguém me diz que ele talvez não estivesse usando Dirk Bogarde para chorar por si. ‘Morte em Veneza’ foi o segundo filme da trilogia alemã, iniciada com ‘Os Deuses Malditos’ e encerrada com ‘Ludwig, a Paixão de Um Rei’. Como cinema, são de um refinamento que beira a perfeição. Exalam decadência, são a própria mise-à-mort. Ludwig radicaliza Aschenbach – estou falando dos personagens – e a tragédia do rei é tratada metaforicamente por meio da deterioração da sua arcada dentária, o que é de uma crueldade extrema (e comprova que, decadente, Visconti não deixava de ser realista). Não sei se terei tempo de rever ‘Morte em Veneza’. Meus dias andam complicados e, amanhã à noite, haverá o debate sobre filmes preferidos, no ciclo sobre Woody Allen, no CCBB (às 19h30). Mas recomendo ‘Morte em Veneza’. Por mais que se detestassem, Losey e Visconti compartilhavam um ator, Dirk Bogarde, e a devoção por Proust. Ao iniciar sua fase Visconti, Bogarde já encerrara a de Losey. Um ator viscontiano, Helmut Berger, foi incorporado por Losey em ‘A Inglesa Romântica’ e Luchino nunca perdoou seu antigo protegido, a quem acusava de traição. Todos os seus filmes, ele dizia, eram sobre os Visconti, sua família aristocrática. ‘Morte em Veneza’ talvez seja mais. Em sua biografia do artista, Laurence Schiffano conta que seu belo pai, o conde de Modrone e Visconti, mecenas das artes , maquiava-se para ir à ópera e perseguia garotinhos nas frisas do Scala, de Milão. De minha parte, nunca vou esquecer a entrada em cena de Silvana Mangano, como a mãe de Tadzio, tão diáfana que parece que vai se dissolver. Várias vezes Visconti tentou reconstituir na tela o mistério de sua mãe, Carla Erba, herdeira da indústria farmacêutica (e, ao que se conta, uma das mulheres mais chiques do seu tempo). Carla Erba era mais parecida com a Dominique Sanda de ‘Violência e Paixão’ – que também adorava tule -, mas a maneira de se mover era a que Visconti impôs à Mangano. Ela entra no salão do Hotel des Bains e a câmera a segue emoldurada por vasos repletos de flores (lírios). Lembro-me de ter entrevistado James Ivory naquele salão. Disse-lhe que ao olhar para aquela porta podia ver surgir a Mangano. Ele quase encerrou a entrevista. Descobri depois que Ivory odiava Visconti. Temo ser injusto dizendo que o melhor Ivory não vale o pior Visconti, uma que não consigo reconhecer o ‘pior’ Visconti e também porque Ivory, na fragilidade geral de suas mise-en-scènes (é um diretor sem vigor), tem pelo menos dois filmes de que gosto bastante, ‘Retorno a Howards End’ e ‘Vestígios do Dia’.