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Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2010 | 15h37

TIRADENTES – Cá estou em em Minas, acrescentando estes posts com procedência local, mas impossibilitado de falar sobre os filmes da competição da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, justamente por integrar o júri da crítica que vai atribuir os prêmios da Mostra Aurora. Tenho assistido aos debates e ando nos cascos para meter a minha colher, falando de ‘Terras’, de Maya Dar-Rin; de ‘Viagem para Ythaca’, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti; e ‘Um Lugar ao Sol’, de Gabriel Mascaro, os três longas a que já assisti. Me aguardem, quando acabar esse voto de silêncio. Foi muito interessante – vou tentar falar sem emitir nenhum juízo de valor – assistir ontem a ‘A Alma do Osso’, de Cao Guimarães, e ao filme de Mascaro. Ambos são documentários. ‘Um Lugar ao Sol’ entrevista integrantes da elite brasileira, pessoas que moram em coberturas no Recife e no Rio e em São Paulo. Numa cena, uma das personagens diz que entre outras coisas, a cobertura lhe permite falar diretamente com Deus, basta olhar para cima, para a imensidão do céu. O filme de Cao conta a história de um ermitão que mora numa caverna de Minas. Ele também olha para o céu e vê a imensidão do cosmo, mas não tem esse delírio de estar falando diretamente com o todo-poderoso. Seria interessante ver a tal madame se instalar na caverna para ter esse momento di-vi-no. Estou jogando conversa fora, e tentando não opinar, embora nada me impeça de comentar o documentário de Cao Guimarães, que já tinha visto no É Tudo Verdade, há alguns (vários?) anos. Cao retomou ‘A Alma do Osso’ porque entrou num edital, ganhou uma verba para lançamento e agora promete lançar o filme em março ou abril. O filme não foi remontado, mas Cao efetuou uma mudança no quadro, para dar a seu filme o formato de cinema. Não acredito que tenha sido isso que mudou substancialmente ‘A Alma do Osso’. Talvez tenha mudado eu, porque o filme não me havia impressionado muito, anteriormente, e desta vez me deixou chapado, desde a citação inicial de Guimarães Rosa – ‘Solidão é eu demais’. O filme tem muito silêncio, mas quando o ermitão fala – a história que justifica o título e o encontro dele com o morto, na ponte – suas frases incompreensíveis, que necessitam de legendas, me produriram o mesmo encantando que o dialeto dos adolescentes de ‘Morro do Céu’, de Gustavo Spolidoro. Pretendo voltar aos filmes da Mostra Aurora, tão logo me desincompatibilize do voto de silêncio a que me obriga a posição de jurado. Posso falar, em compensação, sobre os curtas e ontem vi três nos quais estava particularmente interessado. Integraram o mesmo programa, passando, às 9 da noite, na praça central de Tiradentes. Não gostei do curta gaúcho ‘Quarto de Espera’, que dialoga com o cinema marginal, por meio de ‘Bang Bang’, de Andrra Tonacci, que me havia sido vendido, o curta não o longa de Tonacci, como o melhor filme brasileiro, independentemente de duração, dos últimos tempos. Estão loucos? Talvez tivesse uma expectativa exagerada por ‘Bailão’, que foi premiado em Brasília, porque conheço seu jovem diretor, Marcelo Caetano, da casa de minha amiga Leila Reis. Marcelo é amigo da filha de minha amiga, a Ana Terra, e eu já sabia do furor que seu filme provocou na comunidade dos ‘ursos’, na internet. Gostei, mas sem paixão, e o filme terminou me impressionando muito mais como fenômeno ‘comportamental’ do que estético. O próprio Marcelo definiu seu curta como tratando de ‘sobreviventes’, velhos gays que sobreviveram a tudo – ao preconceito, à aids – e se encontram nesse bailão de São Paulo. O filme passou na praça, com crianças, adolescentes, famílias inteiras formando a plateia. Homens abraçados, dançando de rosto colado e contando histórias de ‘pegação’. Não ouvi uma piada, o povo permaneceu atento e aplaudiu bastante. Marcelo Caetano é mineiro. Talvez tenha feito uma pequena revolução ao voltar para casa, para mostrar seu trabalho. O respeito com que as pessoas receberam ‘Bailão’ sinaliza para alguma coisa. Uma mudança, pequena que seja? Na sequência veio ‘Faço de Mim o Que Quero’, de Sérgio Oliveira, que metaforiza a própria proposta na magnífica sequência de créditos, no final. Os nomes dos integrantes da equipe são escritos no próprio corpo dos personagens desse documentário que, embora diferente – um sobre gays, outro sobre bregas -, não deixa de oferecer um contraponto (ou será complementação?) a ‘Bailão’. Finalmente, ‘Recife Frio’, de Kleber Mendonça Filho. O filme foi superpremiado em Brasília, recebeu, sei lá, oito prêmios na categoria de curtas, mas não o principal. Uma mudança climática, um fenômeno local, uma nuvem que paira sobre a cidade, modifica a paisagem do Recife. Sai o calor e entra o frio, o inverno substituindo o verão. Kleber deu a seu filme o formato de um falso documentário do Discovery Channel. Numa cena, um francês que possui uma pousada diz que o tempo estragou seu negócio. Ele ainda continuou recebendo pedidos de reservas de europeus, mas aí o canal Discovery enviou uma equipe e… Bye bye! ‘Recife Frio’ teve a maior ovação da Mostra de Tiradentes, até agora. Me disseram que, em Brasília, a reação foi a mesma. Que júri terá resistido a atribuir a ‘Recife Frio’ o Candango de melhor curta? Kleber deve estar, me desculpem, c… Ele está levando seu filme a Roterdã, onde recebe a homenagem do festival.