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Cultura » Moravia, 20 anos já

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Luiz Carlos Merten

02 Março 2010 | 09h43

Havia comprado a revista francesa ‘Transfuge’, edição de fevereiro, com Bernard-Henri Lévy na capa. O filósofo, marido de Arielle Dombasle, está sendo vítima de uma campanha de descrédito na França, acusado de plágio. A entrevista é anterior aos últimos acontecimentos, mas tem um título revelador – ‘O último engajado’. Na verdade, é o que talvez incomode os detratores de BHL. Sem querer entrar em discussão sobre sua importância como ‘pensador’, o cara se pauta pela coragem na tomada de posições e defesa de causas impossíveis. Havia lido a entrevista, até por deferência a Arielle, atriz de Eric Rohmer, que participou da homenagem ao grande diretor promovida por ‘Cahiers du Cinérma’ em Paris, na semana passada. Mas havia também em ‘Transafuge’ um dossiê que me interessou bastante e que deixei para ler no avião. Comemoram-se 20 anos da morte de Alberto Moravia e isso, mais uma biografia editada na França, levou a revista a dedicar um dossiê ao autor italiano. BHL, por sinal, gosta muito de Moravia e o que mais o atrai é justamente a forma como arte e vida se compõem e fecundam. Ele chega a afirmar que acredita, cada vez menos, na separação entre o homem e o artista e Moravia é justamente um dos avatares dessa interação. Li todo o dossiê e é muito bacana, com uma análise de Moravia e suas mulheres, uma delas a escritora Elsa Morante – e a forma como as mulheres viram esfinges na escritura moraviana –, mas confesso que estou acrescentando o post por causa do texto de Damien Aubel, que analisa a ‘dívida’ (dette) da sétima arte com o cinema. Se me pedissem para enumerar as adaptações de Moravia para o cinema ia citar Godard (‘O Desprezo’), Bertolucci (‘O Conformista) e Francesco Maselli (‘Os Indiferentes’). O espectro é muito mais amplo e inclui Mario Soldati (‘A Insatisfeita’), De Sica (‘Duas Mulheres’), Damiano Damiani (‘Vidas Vazias’), Mauro Bolognini (‘Agostino’) e Cédric Khan (outra versão de ‘O Tédio’). Cada vez mais me convenço que o filme mais ‘clássico’ de Godard é também o melhor do diretor e é justamente ‘Le Mépris’, com Brigitte Bardot e Fritz Lang na pele desse grande diretor (ele próprio) que quer adaptar a Odisséia e reflete sobre a fatalidade do combate entre o homem e os deuses, metamorfoseados em estátuas de pedra, com olhos não vazios, mas maculados pela pintura. Godard dizia que o cinema, como a pintura, revela o invisível e foi isso que ele buscou na sua adaptação de Moravia – mostrar o invisível. Só que ele terminou fazendo outra coisa. Moravia, no cinema, é sempre fatal e carnal. Suas histórias tratam da injustiça e da fatalidade. Me deu vontade de acrescentar esse post rapidinho. Estou na redação, indo – atrasado – para a cabine de ‘Brothers’, de Jim Sheridan. Mas pretendo voltar a Moravia. Ele amava o cinema, era amigo de Pasolini – tão diferentes e tão próximos. Assunto não vai faltar e quero viajar um pouco nesses filmes antigos. A jovem Claudia Cardinale era um assombro em ‘Os Indiferentes’, melhor que o filme, talvez, mas ao lembrar de Maselli me lembro da textura daquelas obras em prodigioso preto e branco que talvez fossem a última herança do neo-realismo no cinema italiano em progressão do começo dos anos 1960.

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