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Luiz Carlos Merten

25 Junho 2009 | 19h19

Estava terminando de redigir meu texto sobre a morte de Farrah Fawcett para o ‘Estado’ de amanhã, em que deve sair na editoria ‘Vida E’, quando chegou a notícia da internação de Michael Jackson, vítima de parada cardíaca, e logo em seguida essa profusão de boatos de que o rei do pop já teria morrido. Posso parecer piegas, cretino, mas tive uma emoção tão forte que precisei parar, respirar fundo. Calma, Merten. Não sou o maior fã de Michael Jackson, não sou um profundo conhecedor de sua carreira e, como todo o mundo, o vejo como um freak, uma criação de si mesmo e, quem sabe, uma aberração. Mas é impossível resistir àquele passo que ele criou, o ‘moonwalker’, seu passeio na lua. Já vi pessoas em Paris, em Londres, em Tóquio e Nova York, para não falar em Rio, São Paulo e Porto Alegre, sempre reproduzindo aquelas passos míticos. Em Paris, na esquina da rue Huchette com o Boulevard Saint Michel, me encantam aqueles garotos, artistas de rua, que se apresentam todas as noites e um deles sempre põe as luvas brancas e o chapéu para o seu instante Michael Jackson. Os deuses enlouquecem primeiro aqueles a quem amam (e querem destruir). Michael Jackson se fez branco, quis permanecer eternamente jovem e se envolveu em mais escândalos de abuso sexual do que qualquer outro artista que me lembre. Mas ele foi – é – um gênio, vendeu mais discos do que qualquer outro e o clipe ‘Thriller’, directed by Martin Scorsese, é a obra-prima desse gênero. Resolvi fazer uma pesquisa rápida na internet e apareceram aquelas imagens, divulgadas no ano passado, quando ele fez 50 anos. Não sei que site fez uma simulação de como ele estaria hoje, se não tivesse feito todas as plásticas, se tivesse permanecido homem, negro e não quisesse reproduzir em si mesmo a paixão por Diana Ross que o levou a se estabelecer como modelo acabado de androginia. Confesso que chorei. Vocês conhecem a foto? Michael Jackson seria, talvez, aquele sujeito banal, dotado de um sorriso um pouco tímido e talvez triste, mas franco. Olhos nos olhos, não escondidos por trás dos óculos escuros. Não sei se teria sido melçhor para ele e a verdade é que aquilo foi o que ele, em definitivo, não quis para si. O que as pessoas fazem com elas mesmas? Não quero atirar pedras, até porque tudo isso é fascinante. Michael Jackson tem essa ‘allure’ mítica e trágica de Howard Hughes. Louco, visionário. basta pensar nele e já ouyço o grito de guerra – Thriller! E os passos. Moonwalker, o passante da lua.