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Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2007 | 19h27

Dei uma zapeada naz TV paga, antes de sair de casa, o que no meu caso significa ir dos canais 61 a 66, na Net. Peguei no Telecine Cult o velho Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards. Não posso ver passar o trem com Audrey Hepburn e George Peppard que já quero seguir junto. Gosto demais do filme, até do seu pudor, que é uma coisa data, já que Edwards e seu roteirista, George Axelrod, adaptando Truman Capote (Breakfast in TIffany’s), não tiveram coragem de encarar o básico – Holly é garota de programa e Fred é gigolô. Em compensação, criaram uma das mais belas (e sofisticadas) histórias de duplos do cinema, com um final simplesmente maravilhoso. A cena do táxi, quando Holly solta o gato no meio da rua, e Fred lhe diz duras verdades sobre a jaula que ela criou para si mesma, com medo de amar, é a coisa mais bergmaniana que Bergman não escreveu. Cenas de um casamento, não necessariamente formal. Ela desce do carro e sai correndo sob a chuva, gritando ‘Cat! Cat!’, porque o gato não tem nome. Me emociono só de escrever. Capote queria Marilyn Monroe no papel. Estava louco. Ainda bem que Edwards não cedeu e bateu pé em Audrey Hepburn. E o filme ainda tem a trilha de Henry Mancini, Moon River. Francamente, só sendo ruim da cabeça para não gostar de Bonequinha de Luxo.