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Luiz Carlos Merten

02 Fevereiro 2009 | 16h33

PARIS – A cidade amanheceu hoje coberta de neve e o frio não arrefeceu, embora a ausência de vento já tenha proporcionado um alívio em relação a ontem. Fiz a ronda das livrarias, tinha de comprar uma mala nova (a minha arrebentou), redigi um texto longo, envolvendo alguma pesquisa, para o ‘Caderno 2’. Como consequência, só agora pude voltar ao post e aos e-mails. Foi por meio deles que fiquei sabendo da morte, no sábado, de Antônio Moniz Vianna. Nunca o conheci – quero dizer. nunca tive contato direto com ele. Muitos anos atrás, antes que o livro com a seleção de críticas o resgatasse do seu auto-exílio voluntário – até ontem sei, foi Moniz Vianna quem resolveu parar de escrever -, tentei, sem êxito, fazer um capa com ele no ‘Caderno 2’, no tempo em que existiam os Encontros Notáveis. Aos sábados, publicávamos uma grande entrevista, de várias páginas, com personalidades fundamentais. Fiz algumas – várias -, mas não tantas quanto gostaria, porque me faltaram entrevistas como a que eu sonhava fazer com Moniz Vianna, retraçando seus anos no ‘Correio da Manhã’. Acho que não há ofensa em dizer que, num certo sentido, Moniz Vianna foi um grande reacionário – como Nelson Rodrigues? -, na contracorrente do cinema que se pretendia revolucionário nos anos 60. Em plena nouvelle vague, Moniz Vianna ousava proclamar que John Ford era the best, ‘o’ mestre. Em pleno Cinema Novo, ele permanecia um defensor solitário de Lima Barreto, enaltecendo as qualidades de ‘O Cangaceiro’ e sendo capaz de ver grandeza até em ‘A Primeira Missa’. Já contei para vocês que meu irmão, funcionário da Varig em Porto Alegre, levava para casa os jornais que recolhia dos aviões e que faziam a minha felicidade. Foi o Ildo, sem saber, quem me abriu as portas para leituras tão conflitantes quanto as de Jean-Claude Bernardet e Moniz Vianna, no começo dos anos 60. Bernardet dedicou sei lá quantas críticas a ‘O Bandido Giuliano’, de Francesco Rosi, na ‘Última Hora’, em São Paulo. Moniz Vianna, enquanto isso, dissecava ‘O Homem Que Matou o Facínora’, de John Ford, no ‘Correio da Manhã’, do Rio (e o jornal era um baluarte da resistência ao regime militar. Eu já lia o ‘Estado’ em Porto, mas me encantava o suplemento de cultura do ‘Correio da Manhã’, onde li textos que me fizeram evoluir, sobre Tati, Kubrick e García Márquez.) De volta a Bernardet e Moniz Vianna, nunca achei que tivesse de escolher entre os dois, ou entre os filmes que defendiam, e durante toda a minha vida minhas escolhas foram sempre no sentido de provar, para os outros e para mim, que não são paixões excludentes e é possível, sim, gostar de extremos. Se não, qual é a graça? Onde fica o sagrado direito à diferença? Moniz Vianna havia parado de escrever, mas nos implacáveis arquivos do ‘Estado’ eu nunca deixei de reencontrar (e reler) seus textos sobre os grandes diretores que amávamos. Lembro-me quando ele publicou uma série de filmografias de grandes diretores, mas entre os grandes diretores de Moniz Vianna estavam aqueles que muitos de meus futuros colegas considerariam, ou consideravam, pequenos – George Sidney, por exemplo, cuja filmografia lhe mereceu não um, mas três extensos artigos, nos quais eu me lembro como ele estudava a influência do pintor Holbein nos filmes históricos que Sidney realizara. Tenho na minha estante, em São Paulo, o volume com as críticas de Moniz Vianna. Nunca o li, nem sequer folheei, talvez porque não precisasse. Sei bem quanto a leitura de Moniz Vianna me abriu os olhos para Ford, Preminger, Peckinpah, Wilder, para o cinema de gênero – western, filme de gângsteres, noir, musical – que ele amava e me transmitiu esse amor. Implicava com certas preferências dele, por Fred Zinnemann, por exemplo, mas isso fazia parte da nossa ‘relação’. Ninguém é perfeito, que diabo… Acho que o legado de um grande crítico deve ser isso. Compartilhar sua experiências, seu amor. Nunca o conheci pessoalmente, mas o conhecia, sim, no íntimo, pelo que escrevia. Só tenho a agradecer pela existência de Moniz Vianna. Não era uma filiação intelectual. Era uma coisa muito mais visceral, de emoção mesmo. Quem me dera um dia dissessem de mim que insuflei a alguém esse mesmo amor pelo cinema.