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Luiz Carlos Merten

30 Novembro 2010 | 01h41

Havia combinado com meu amigo Dib Carneiro de ver ‘Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos’. Woody Allen faz 75 anos na quarta-feira (amanhã) e eu senti que tinha de reavaliar o filme antes de escrever qualquer coisa sobre o autor. Quando cheguei no Arteplex, Dib acabara de receber um telefonema do Zanin, que, de Brasília, lhe anunciou o suicídio de Mario Monicelli. Tomei um choque. Nem consegui ver o filme de Woody Allen direito. Se já estava deprimido, o filme escavou mais um pouco o buraco em que estava afundado. Mas Woody Allen fica para depois. Monicelli suicidou-se! Aos 95 anos e sofrendo de câncer terminal de próstata, ele se jogou do quinto andar do hospital em que estava internado, em Roma. As imagens passam pela minha cabeça. Imagens de filmes de Monicelli, a história de outro suicida, Clyde Bruckman, a quem Jean Tulard dedica seu ‘Dicionário de Cinema’. Como Monicelli, Bruckman ficou famoso como diretor de comédias (de Buster Keaton, Harold Lloyd, W.C. Fields e Gordo e o Magro). O homem que fez tanto rir, deprimido por não ter dinheiro para pagar a conta de um restaurante, trancou-se no banheiro e deu cabo da própria vida. Monicelli também devia estar deprimido, com certeza. Conheci-o em Veneza, em 1991, no ano de seu ‘Rossini’, quando ele recebeu um Leão de Ouro especial, por sua carreira. Era minha primeira vez no Lido e eu, falando no italiano que aprendi nos filmes, interpelei-o sobre sua visão do artista. Monicelli me disse com todas as letras que fazia filmes para o público, não para os críticos. Detestava jornalistas. Devia achar-nos parasitas, não sei. Embora já tivesse 75 ou 76 anos – ele morreu aos 95 -, estava rijo e forte e ainda faria pelo menos mais um grande filme, ‘Parente É Serpente’, em 1993. Para ser honesto comigo mesmo, tenho de dizer que, mesmo reconhecendo a importância de Monicelli, nunca o considerei tão grande quanto Dino Risi, por exemplo, o ‘meu’ gênio da comédia à italiana. Monicelli nasceu em Roma. Estudou história e filosofia e foi crítico em ‘Caminare’. Lembro-me que, naquele mesmo ano, em Veneza, assinalei o paradoxo para Suso Cecchi D’Amico, a grande roteirista de Luchino Visconti. O cara que detestava críticos havia sido um deles, um de nós. Ela, que também trabalhou com Monicelli, me disse que Mario era assim mesmo, mas que não me impressionasse, porque era um bon uomo e, vencida a resistência inicial, ele era do tipo que adotava as pessoas. Não houve outro encontro com Monicelli, exceto no escurinho do cinema, vendo seus filmes. Em 1935, como cineasta amador, ele foi premiado em Veneza por uma adaptação de ‘Os Meninos da Rua Paulo’, de Ferenc Molnar. Após as guerra, integrou-se ao cinema italianio profissional, primeiro como roteirista e, depois, como co-diretor (com Steno). Não tendo sido um neo-realista, Monicelli encontrou no lendário Totò o ator perfeito para seu tipo de humor encravado na realidade e tragicômico. O primeiro grande sucesso foi uma parceria com Steno, ‘Guardas e Ladrões’, mas em 1958 ou 59, com ‘Os Eternos Desconhecidos’, Monicelli já dirigia sozinho. O filme antecipa ‘O Incrível Exército de Brancaleone’, também com Vittorio Gassman. Assim como a aventura do cruzado Brancaleone é uma sucessão de fracassos, o golpe – o assalto ‘perfeito’ de ‘Rufufu’, que nasceu nas pegadas de ‘Rififi’, de Jules Dassin – é posto a perder por um grupo de pequenos criminosos sem a menor vocação para o que fazem. Entre ‘Eternos Desconhecidos’ e ‘Brancaleone’ vieram ‘A Grande Guerra’ e ‘Os Companheiros’, grande sucesso nos primórdios da ditadura, por seu retrato de um agitador socialista que percorria a Itália tentando conscientizar a classe trabalhadora. O filme interpretado por Marcello Mastroianni – e Annie Girardot, Renato Salvatori e Folco Lulli – tinha tudo a ver com o Brasil que resistia aos militares e, como tal, virou um favorito das sessões especiais em universidades e cineclubes. O engajamento persistiu em ‘Golpe de Estado à Italiana’, ‘Romance Popular’ e ‘Un Borghese Piccolo Piccolo’, em que expressou na tela a perda das easperanças de sua geração. Quando seu amigo Pietro Germi morreu, Monicelli realizou, como homenagem, ‘Meus Caros Amigos’, tentando se manter fiel às indicações que o outro deixara no roteiro. Ele voltou aos personagens daquele filme, em chave mais pessoal, em ‘Quinteto Irreverente’. O universo masculino e o machismo latino não tinham segredos para ele, mas Monicedlli sabia filmar as mulheres como os homens, basta lembrar de ‘Tomara Que Seja Mulher’. Seu humor, mesmo quando corrosivo, não era destituído de humanidade. Existem, como bem assinala Jean Tulard, na obra de Monicelli, esses momentos que cortam o coração do espectador. O que o levou ao suicídio? O sexo comido pela doença? Talvez. O suicídio, já dizia Albert Camus, é o único verdadeiro problema moral. Mais do que como uma questão intelectual – mas talvez tenha sido um gesto político, radical, como tantos de seus filmes -, Monicelli o encarou, como disse Getúlio Vargas na sua carta-testamento,  como uma forma de sair da vida com dignidade e entrar na história. Reitero que, como artista, não creio que Monicelli tenha sido tão grande quanto Dino Risi. Estão agora todos mortos. Risi, Suso D’Amico, ele. A cada um, o ‘seu’ Monicelli. O meu é o de ‘Os Eternos Desconhecidos’, ‘Os Companheiros’ e ‘Parente É Serpente’. Na ordem inversa, um requisitório sobre (e contra) a família, um manifesto ideológico e um filme sobre os ‘suspeitos habituais’ (I Soliti Ignoti). Vou tentar citar de memória o que Pauline Kael, que amava Monicelli, escreveu sobre seu filme. Uma pequena grande comédia sem brutalidade nem feiúra, sem heróis nem vilões. Apenas um bando de bem intencionados, cheios de esperança e, no limite, incompetentes trapaceiros. Gassman, Mastroianni, Salvatori e Claudia Cardinale estavam iniciando ali suas extraordinárias carreiras. Totò, o príncipe Antonio De Curtis, pelo contrário, ingressava na sua fase final (mas ainda seria uma década prodigiosa, que o aproximou de Pier Paolo Pasolini). Totò, dizia Kael, não era um palhaço convencional. Era um aristocrata que representava na tela o homem do povo. Seus olhos transmitiam o cansaço de quem havia visto tudo. Monicelli ajudou a esculpir aquela persona, o mito. Pode ter sido um cansaço semelhante que o impulsionou a saltar daquela janela. Já é madrugada. Jamais imaginei que, no mesmo dia, depois de enterrar Leslie Nielsen, Irvin Kershner e Mauro Alice, ainda teria mais um cadáver, o de Monicelli. Estou arrasado. Espero acordar em melhores condições.