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Luiz Carlos Merten

29 Fevereiro 2008 | 09h03

Falando anteontem sobre ‘Monika e o Desejo’, de Bergman, lançamento em DVD da Versátil, nem me dei conta de acrescentar alguma coisa sobre os demais títulos que compõem o pacote, acho que de fevereiro, da distribuidora. Emendei férias com a cobertura de Berlim, fiquei mais de um mês fora e quando cheguei havia tanta coisa – livros e DVDs – que nesta altura eu não sei mais se estou misturando as épocas. Mas, enfim, chegaram juntos ‘Monika’, ‘As Duas Vidas de Mattia Pascal’, de Mario Monicelli, com Marcello Mastroianni, adaptado de Pirandello; ‘Partner’, de Bernardo Bertolucci; e ‘La Marseillaise’, de Jean Renoir. Pertenço a uma geração que, em Porto Alegre, privilegiava Dino Risi sobre Monicelli e eu, que sempre amei Risi, tinha meio que rir às escondidas com Monicelli. Adoro alguns filmes dele – ‘Guardas e Ladrões’, feito em parceria com Steno; ‘Os Eternos Desconhecidos’; ‘A Grande Guerra’; ‘O Incrível Exércioto de Brancaleone’ – pela cena em Bizâncio, a minha preferida, com Barbara Steele -; e ‘Parente É Serpente’, embora tenha de reconhecer que nenhum desses filmes valha ‘Aquele que Sabe Viver’ (Il Sorpasso), ‘Os Monstros’, ‘Férias à Italiana’ e ‘Vejo Tudo Nu’, que são ‘clássicos’ do Risi. Prometo rever ‘Mattia Pascal’ antes de falar mais alguma coisa. Nunca vi ‘Partner’, não sei nem por que. O filme que Bertolucci realizou no calor de Maio de 68 é considerado o mais godardiano do diretor, sobre um personagem ‘duplo’ que encarna as divisões da esquerda da época. Embora Pasolini tenha sido importante no começo de sua carreira – escreveu ‘La Commare Seca’ e seu ator-fetiche, Nineto Davoli, está em ‘Partner’ – creio não dizer nenhuma novidade, ou besteira, se destacar que Bertolucci, nos anos 60 e 70, dividia-se entre a herança de Visconti e Godard, chegando ao filme dentro do filme, dirigido por Jean-Pierre Léaud, que eu, pelo menos, acho o elo fraco de ‘Último Tango em Paris’. Entrevistei-o mais de uma vez (por telefone), volto sempre ao assunto, digo que sou viscontiano e ele, simpaticamente, disse da última vez – sobre ‘Os Sonhadores’ –, que era uma diferença grande entre nós, pois ele se assume como discípulo de Rossellini. Nunca senti muito essa filiação rosselliniana do Bertolucci, exceto pela curiosidade, que levou Roberto à Índia e que impulsionou Bernardo a fazer sua espiritualista trilogia oriental. Acho ‘O Último Imperador’ um filme lindo, mas não gosto muito. Acho as cenas do deserto de ‘O Céu que nos Protege’ deslumbrantes, mas não embarco na viagem interior dos personagens (Debra Winger e John Malkovich) que o diretor adaptou do romance de Paul Bowles. Vou embarcar no que vocês me dizem sobre ‘Desejo e Reparação’ – o livro é muito melhor. Sobre ‘O Pequeno Buda’, calo-me. Keanu Reeves não é exatamente a minha versão da encarnação de Sidarta. De volta a ‘Partner’, o filme é interpretado por Pierre Clémenti, que se envolvia com Catherine Deneuve no bordel de Madame Anaïs em ‘A Bela da Tarde’ e eu não sei onde li outro dia, acho que em Berlim, que Clémenti era também diretor e criou um diário filmado de sua vida que dizem que é muito radical. Também preciso ver ‘Partner’, mas agora quero falar de ‘La Marseillaise’. No próximo post.

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