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Luiz Carlos Merten

27 Fevereiro 2008 | 15h07

Uma editora de Santa Catarina adquiriu os direitos de ‘Cenas de Um Casamento’, que eram da Nórdica, e vai relançar o livro com o roteiro do filme de Ingmar Bergman com Liv Ullman e Erland Josephsson. Pediram-me que escrevesse um prefácio, ou apresentação, o que vou fazer, com o maior prazer. Falar sobre Bergman e sua contribuição à história do cinema – e à minha história individual – é coisa que me estimula bastante. Nunca vou esquecer. P.F. Gastal, o Calvero, adorava Bergman. Quando ‘Morangos Silvestres’ estreou em Porto Alegre, Gastal voltou várias vezes ao assunto. Na primeira vez que vi o filme, não sei se era muito jovem, se não entendi, mas ‘Morangos’ não me falou muito. Anos mais tarde, revi o filme e se transformou num dos meus filmes favoritos do Bergman. Aquela cena do velho professor Isak Borg atirado no jardim de sua infância e chamando pela mulher que o abandonou – ‘Ana! Ana!’ –, não sei de vocês, mas faz parte das minhas experiências inesquecíveis no cinema. Gosto muito de outros filmes de Bergman – ‘Gritos e Sussurros’, o obscuro ‘O Rosto’, que amo de paixão –, mas se tivesse de escolher um, e apenas um, seria o ‘Morangos Silvestres’. Bergman morreu no ano passado, no mesmo dia em que também, morreu Michelangelo Antonioni. Há 13 anos, para comemorar o centenário do cinema, o Festival de Cannes resolveu homenagear, com a Palma das Palmas, um grande artista que nunca havia recebido o prêmio. Ganhou Bergman e Liv Ullman foi receber o prêmio por ele. O clipe que o festival mostrou, com cenas dos clássicos de Bergman, era uma das coisas mais geniais que já vi. E agora temos aí mais dois lançamentos do diretor em DVD, pela Versátil. ‘Juventude’ e ‘Mônica e o Desejo’. Gosto mais do segundo e Harriet Andersson, que faria mais tarde a moribunda Agnes de ‘Gritos e Sussurros’, é uma das representações mais vivas da sexualidade feminina no cinema. E ela é anterior à Brigitte Bardot de ‘E Deus Criou a Mulher’, do Vadim! Em sua autobiografia, ‘A Lanterna Mágica’, Bergman conta que Harriet foi um furacão que assolou o cinema sueco, ‘comendo’ todo mundo graças a seu temperamento libertário que fazia dela um furor na cama. O filme passa isso, numa época em que o cinema sueco, no começo dos anos 50, parecia o mais livre do mundo. ‘Mônica e o Desejo’ é de 1952, imediatamente anterior a ‘Noites de Circo’. Mostra este casal que vive toda a intensidade do desejo e do sexo. A chegada de um filho marca a passagem à idade adulta. Os compromissos que o filho e a família acarretam encerra uma fase. Nada será como naquele arquipélago em que Mônica se dá ao amante. Bergman dizia que era um de seus filmes mais simples (o mais?). Ele simplesmente foi para a locação com os atores. Tinha uma idéia na cabeça, algumas páginas de roteiro. ‘Mônica e o Desejo’ foi feito com liberdade, como o próprio sexo da dupla de protagonistas. Que filme!

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