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Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2008 | 18h49

Pode parecer coisa de deslumbrado, e talvez seja, mas confesso que fiquei sensibilizado com a gentileza das Cinnamonn Girls, ou seja, Lia Vissotto e Mona Camargo, que atendem, entre outras contas, a da Sony/Columbia. Lia e Mona têm projetos próprios e um desses foi a vinda ao Brasil de Michel Gondry. Acompanhei todos os preparativos e até publiquei a primeira matéria sobre o assunto no ‘Caderno 2’, mas na hora H, quando Gondry chegou, estava impossibilitado e Antônio Gonçalves Filho fez a entrevista com o diretor – que não li, mas todos me dizem que foi coisa de dez a zero na concorrência. Grande Toninho… Mas, enfim, havia perdido o Gondry quando recebi na segunda-feira um telefonema. Ele estava a caminho do aeroporto, indo embora, mas a Lia e a Mona devem tê-lo convencido a conversar comigo. Foi mais do que uma gentileza. Confesso que Michel Gondry não era uma referência muito forte para mim. Achei simpático aquele filme do ‘Sono’, com o Gael García Bernal, mas devo ser o único, no mundo, a não ter me impressionado muito com ‘Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças’ (e olhem que adoro Jim Carrey e Kate Winslet). O problema, no caso, era o roteirista Charlie Kaufman, um gênio de uma nota só, que descobriu uma fórmula e a repete (esqueci o título do filme que ele próprio dirigiu e que passou em Cannes, em maio; era horroroso). O gênio de Gondry me saltou aos olhos em fevereiro, em Berlim, quando vi ‘Be Kind Rewind’ (Rebobine, por Favor). Achei o filme maravilhoso, uma obra-prima de invenção e inteligência e o Gondry ainda deu a entrevista mais inusitada que eu já vi, em qualquer festival. Seu filme encerrava Berlim e ele chegou sozinho para a entrevista. Sentou-se e conversou com a gente – uma platéia imensa, todo mundo entusiasmado com o filme que estréia na sexta, dia 12 – num tom íntimo, como se estivesse na sala de sua casa. Foi um momento mágico e, quando terminou, lembro-me que Kleber Mendonça, lá do Recife, e eu estávamos no sétimo céu da felicidade cinematográfica (e o Kleber ainda me pedia que revisse ‘Brilho Eterno’). Tive a mesma sensação conversando com o Gondry pelo telefone. Ele me contou que sua brincadeira referida com o irmão, quando criança, era fingir que ambos filmavam (e com os recursos à mão). Mas ele não queria ser diretor. Queria ser inventor, criador de traquitanas. O cinema, via videoclipe, veio depois, por meio do seu interesse pelas pessoas. Foram as histórias dos outros, as histórias que ele descobriu que é possível contar, que o colocaram nesta via. Ela passa não só pelos filmes, mas pela exposição que Gondry trouxe a São Paulo (e que a Lia e a Mona querem ver se levam ao Rio e a Belo Horizonte). Estreando no finalzinho do ano, ‘Rebobine’ vai ser, para mim pelo menos, um dos grandes filmes de 2008. E o telefonema do Gondry, me perdoem o tal deslumbramento, também vai ser uma coisa para não esquecer.

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