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Cultura » ‘Moby Dick’ e o desafio (in)sano de Aderbal Freire Filho

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Luiz Carlos Merten

24 Julho 2009 | 12h41

Vou fazer um post enorme, mas vou tentar facilitar abrindo parágrafos. Por mais que admire – e respeite – Wagner Moura, não gostei muito do Hamlet dele e do diretor Aderbal Freire Filho. Achei-o aeróbico demais e, em mais de um momento, queria que o Wagner parasse de correr no palco para que eu pudesse fruir o texto de Shakespeare. (Tive essa mesma sensação assistindo a ‘Não sobre o Amor’, de Felipe Hirsch, com Leonardo Medeiros. O ator se empoleirava naquelas cadeiras presas nas paredes e me batia uma angústia danada. Me parecia que ele estava fazendo um esforço incrível e eu não conseguia prestar atenção no texto – um problema meu, com certeza, já que a maioria das pessoas que conheço adorou o espetáculo. Já que falei em Felipe Hirsch e Leonardo Medeiros, o longa deles, ‘Insônia’, não não é ‘Insônia’ – o romance de Graciliano Ramos, que Sylvio Back vai filmar –, acho que é ‘Insalubre’ ou coisa que o valha, filmado em Brasília, foi selecionado para Veneza, minhas fontes me garantem, só não sei se para a competição ou em alguma mostra paralela. De volta a Aderbal Freire Filho, fiquei nos cascos quiando vi ontem, na capa do Segundo Caderno do ‘Globo’, uma reportagem (que não li) sobre a nova montagem do diretor. Aderbal adaptou nada menos do que ‘Moby Dick’, do Melville. Ubiratan Brasil foi ao Rio para fazer a entrevista. Bira contou que Aderbal não usou o filme de John Huston como referência, mas se eu soubesse que ele estava indo lá teria enviado, de qualquer maneira, o belo texto que Antônio Moniz Vianna escreveu para o ‘Caderno 2’ em janeiro de 1990, há quase 20 anos, quando aquele clássico saiu em vídeo. Independentemente de influência ou não, é um enriquecimento para qualquer pessoa – e para um adaptador de Melville, então… – ler o que escreveu o Moniz Vianna.
O grande crítico cita o surrealista Ado Kyrou, que dizia que Huston poderia ter escrito o livro de Melville, da mesma forma que Melville poderia ter feito o filme. A identificação a entre o cineasta e o escritor é tão grande que o que Huston acrescentou, com a cumplicidade de Ray Bradbury, dá a impressão de ser justamente o que faltava no livro. Uma dessas cenas é a luta de Ishmael com o marinheiro português que se divertia arranhando sadicamente a pele tatuada de Queequeg com sua faca – e este, que parecia insensível à dor, desperta da imobilidade letárgica (que está no livro) em que se encontrava, após a previsaão de sua morte no jogo de ossos, para defender o amigo. Bradbury já era um grande da ficção científica quando escreveu o roteiro de ‘Moby Dick’, mas o que Huston exigiu e conseguiu dele foi a filiação ao caráter alegórico do texto melvilliano. O filme, como o livro, afinal, é uma blasfêmia. Sua complexidade dramática manifesta-se em dois planos – o filosófico e o da aventura marítima.
Embora não tenha lido a reportagem de ‘O Globo’, havia um olho ou um legenda que informavam que ‘Hamlet’ liberou o diretor para ser mais ambicioso. Aleluia! A prosa rítmica de Melville em “Moby Dick’ costuma ser definida como ‘bíblico-shakespeariana’. Moniz Vianna observa que, no plano metafísico, Huston incorpora símbolos múltiplos, numa linguagem que atinge uma dimensão mágica, tudo para desvendar, às vezes por meio de personagens de participação (muito) secundária na trama, a turva personalidade de Ahab e sua obsessão insana. Moby Dick não é só uma baleia, ou não é apenas essa baleia tão branca e grande como uma montanha de neve ou uma grande lápide de mármore, sempre acompanhada por um bando de pássaros brancos como anjos. O filme, como o livro, escreve Moniz Vianna, é a alegoria da luta do homem contra as forças malignas e imponderáveis que o atormentam e aterrorizam. Ahab está no centro de uma revolta mística contra o universo absurdo e uma divindade demoníaca – e, para o capitão, esta divindade é Moby Dick.
Não entrei em detalhes com o Bira sobre como Aderbal Freire Filho mostra a baleia, ou mesmo se a mostra. Mas já viajei aqui comigo. Há um filme de Peter Yates que eu amo, ‘O Fiel Camareiro’, com Tom Courtenay como o camareiro de um velho ator shakespeariano que está envelhecendo (e perdendo a memória). Albert Finney é quem faz o papel e, depois, o eterno Tom Jones foi o cônsul Firmin de ‘À Sombra do Vulcão’, que Huston adaptou de Malcoklm Lowry (outro livro considerado ‘infilmável’). ‘O Fiel Camareiro’ tem a cena da tempestade de ‘Rei Lear’ reconstituída no palco, que é uma das coisas mais lindas que já vi no cinema. Sei lá porque faço esta ponte sem ter visto ‘Moby Dick’ de Aderbal Freire Filho. Imagino que a baleia possa ser simplesmente referida no texto, mas adoraria vê-la do jeito que Peter Yates filmou a tempestade. Sei que estou morrendo de vontade de ver a peça e com mais vontade ainda de (re)ver o filme, que saiu em vídeo, mas não tenho certeza de que exista também em DVD. Huston e o diretor de fotografia Oswald Morris já haviam inovado em ‘Moulin Rouge’, de 1952, com o objetivo de reproduzir na tela os tons das pinturas de Toulouse-Lautrec. Eles rodaram ‘Moby Dick’ em technicolor e tiraram dois negativos, um em cores e outro em preto e branco. Os dois foram impressos juntos numa cópia única, com o que obtiveram uma tonalidade completamente nova. Em sua autobiografia, ‘Um Livro Aberto’, Huston fala das dificuldades da produção e conta que a baleia mecânica do filme conseguia ser mais irada que a do livro. Já pensaram se Hollywood quisesse refazer hoje ‘Moby Dick’? Tecnicamente, seria um show, mas temo que toda a blasfêmia do livro, e do filme de Huston, seria infantilizada.